30/08/2009

Depois da passagem do fogo

(Fotos de Rui André, Verão de 2003)
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27/08/2009

A história do cágado, de Almada Negreiros

(…) Eu não sabia por que é que pensava na história do cágado e do homem muito senhor da sua vontade, a única de que tinha gostado verdadeiramente no livro de contos e novelas do autor de «A Invenção do Dia Claro». Não sabia, mas pensava. O homem a desistir da procura, a tapar o buraco, a remover a terra da imensa montanha que involuntariamente tinha levantado, até que da terra da primeira pazada, a da primeira vez em que tinha cravado a pá no chão, dessa terra aparecia o cágado. No meio da confusão que reinava no centro de comando das operações de combate ao fogo, eu pensava na história do homem muito senhor da sua vontade que de repente se punha à procura de um cágado e por causa disso ia até ao outro lado do mundo. Seguia o meu irmão, já de volta à carrinha, de certeza porque também ele achava que nada havia a fazer naquele lugar. Eu estava ali mas ao mesmo tempo não estava. Pensava nas peripécias do conto escrito pelo autor de «A Invenção do Dia Claro», quase que o lia, numa recordação de várias leituras que tinha feito dele. (…)
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Excerto de «Uma Noite com o Fogo», pág. 138
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(Imagem: José Sobral de Almada Negreiros, 1893-1970, auto-retrato)
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A foto da capa

(Foto de Rui André, Verão de 2003)
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25/08/2009

Sozinho

(…) O que eu esperava era encontrar um enorme corrupio por ali, carros de bombeiros, ou de particulares que andassem também no combate às chamas; até algumas viaturas distintas de políticos nem por sonhos dignos de distinção, ou algum helicóptero mais destemido para se aventurar à noite pelos ares pintados de vermelho. E jornalistas, também jornalistas, sobretudo se houvesse políticos. Mas não. Nada. Ninguém. Por mais que forçasse a vista, eu não descobria nenhum sinal capaz de contrariar a ideia que entretanto tinha ido formando ao percorrer a estrada nova: estava sozinho. (…)
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Excerto de «Uma Noite com o Fogo», págs. 15 e 16
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(Foto de Rui André, Verão de 2003)
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14/08/2009

Rasputine a preto e branco

(…) Estava em campo aberto, desprotegido se me atirassem alguma coisa, até uma bala, podiam disparar contra mim, mas por outro lado sentia que ali em campo aberto talvez controlasse melhor um ataque directo. Alguém que corresse para mim teria de ficar visível durante uns segundos, percorrer alguns metros até me alcançar. Mesmo que fosse o homem com figura de Rasputine a preto e branco. (…)
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Excerto de «Uma Noite com o Fogo», pág. 43
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10/08/2009

O jornal dos dias úteis na república

(…) Para pedir milagres talvez valesse a pena pedir logo um maior a ver se pegava, um milagre que fizesse o ribeiro desatar a correr pela encosta acima até à linha de fogo, e aí separar-se, meio ribeiro para um lado, meio ribeiro para o outro, sobre a linha de fogo, e depois de apagá-la as águas, as que não se evaporassem na luta com as chamas, essas águas valentes haveriam de descer apressadas pelos montes abaixo até ao vale, e aí o ribeiro correria novamente, depois daquele milagre de que muito se falaria. Quem sabe até se falaria dele nalgum ministério onde tratassem do combate aos incêndios, talvez até fosse parar ao jornal que nos dias úteis a república fazia publicar, e quem sabe algum figurão dos que nos fogos não apareciam, ou apareciam de longe e com jornalistas em redor, de preferência com transmissão directa – rádios e televisões –, talvez algum desses assinasse no fim, não como era conhecido mas com o nome completo; talvez assinasse depois de um arrazoado de difícil compreensão até à terceira leitura, que os ribeiros, sim, apenas esses, porque com rios era perigoso, pela dimensão do caudal, mas ribeiros sim, e até outros cursos de água menores, barrancos, regatos, os regos das águas das hortas, qualquer um servia, era legal, podiam ir todos em força correr para onde as chamas ardiam, bastava que se desse o milagre que a lei não proibia, que até incentivava, e se fosse preciso algum subsídio das europas para ajudar a água a subir os montes também se tratava de tudo, mais papel menos papel, papeladas, sempre as putas, perdão, que esse termo nunca seria aceite no jornal editado pela república, quando muito o raio das papeladas; e lá iam os cursos de água do ribeiro acabar com as chamas, iam direitos a elas, às putas das chamas, perdão, ao raio das chamas, direitinhos, não se punham à espera no sítio por onde corriam, nem operavam os milagres em direcção às estradas de alcatrão para só aí anularem as chamas, se pudessem, como era permitido e ordenado às águas que saíam das mangueiras dos autotanques.
(…)

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Excerto de «Uma Noite com o Fogo», págs. 76 e 77
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02/08/2009

O homem do copo de whisky

(…) A certa altura, talvez fosse ali, ou talvez fosse na própria recordação do conto, havia um outro homem, aos ziguezagues, de fato e gravata, e sempre aos berros. Dava ordens por todo o centro de comando das operações de combate ao fogo, dava ordens a quase toda a gente, e quase toda a gente parecia obedecer-lhe, de cabeça em baixo. Havia pessoas com a língua de fora, e algumas delas tinham a cabeça tão em baixo que se quisessem podiam com a língua tocar nas botas do homem aos berros que ziguezagueava. O homem dava ordens, ali ou no conto de Almada Negreiros, eu nem sabia, o que sabia é que ele dava ordens, de copo de whisky na mão.
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Excerto de «Uma Noite com o Fogo», pág. 139
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31/07/2009

Duas sessões de autógrafos no Algarve

Este Sábado, um de Agosto, duas sessões de autógrafos do romance «Uma Noite com o Fogo», ambas no Algarve, em feiras do livro. Às 17H00 em Faro, no Fórum Algarve; às 21H30 em Portimão, na zona ribeirinha da cidade.

29/07/2009

O arco-íris da noite

(…) Um arco-íris da noite, foi do que me lembrei, foi a ideia que tive. Aquelas cores a misturarem-se bem à minha frente, sem a forma de um arco-íris, mas eram um arco-íris da noite. Pequeno, muito pequeno, ali entre as minhas mãos (…)
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Excerto de «Uma Noite com o Fogo», pág. 97

27/07/2009

O clarão

Estava no clarão. Bem no meio dele. Depois dos primeiros quilómetros pela estrada nova, ainda numa zona plana, eu tinha começado a subida. Uns minutos apenas e de repente a sensação que agora continuava, a da entrada com o carro no meio do clarão que antes tinha visto sempre bem à minha frente. O gigante que de longe me parecia compacto e adormecido, ali, já nos primeiros montes da serra, revelava-se muito diferente. (…)
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Excerto de «Uma Noite com o Fogo», pág. 15
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(Foto de Rui André, Verão de 2003)
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15/07/2009

Um ministro derrubado à pedrada

(…) E logo a seguir atirei a pedra, com força, tanta força que a vi desaparecer no escuro e só uns segundos depois me chegou o barulho dela a atravessar a ramagem dos amieiros e depois a embater com força na água do ribeiro. Não tinha acertado em nenhum daqueles idiotas que esperavam uma fotografia. Ou então tinha e o barulho na ramagem e depois na água, afinal, tinha sido o idiota atingido a cair ao mesmo tempo da pedra. Era um pensamento, uma espécie de sonho imaginado, momentâneo, agora já a parecer-me diferente dos outros sonhos confusos que me invadiam por vezes o sono. Como eu gostaria de que fosse verdade, que aqueles vândalos estivessem todos ali alinhados e que eu pudesse acabar com a sua incompetência acertando com uma pedra em cada um, uma coisa ligeira, apenas que os tocasse e fizesse com que saíssem dos lugares de empecilho de que eram senhores. Que pudessem ir para casa, cada um para a sua, se não houvesse casos em que partilhassem, nem eu me arriscava a dizer por via de que relações. Lá iam eles para casa, apenas com um galo na cabeça para não se esquecerem de como eram verdadeiramente desqualificados. Um ministro, por exemplo, se lá estivesse – tinha de estar, pelo menos aquele que eu uma vez, cerca de um ano antes, tinha ouvido discursar nas calmas para os deputados da república enquanto ardia uma aldeia a não muitos quilómetros dali –, um ministro até podia depois de aterrar no ribeiro, levantar-se, passar as mãos pelo corpo a ver se não tinha nada partido, e depois andava uns metros até à levada e ia pela parede sempre a par do ribeiro, no sentido em que as águas corriam e em cinco ou dez minutos chegaria à aldeia da antiga casa da minha avó, onde a levada embocava na represa. E aí era só andar mais uns metros que no escuro da noite lá estaria o carro com o motorista para levá-lo para o remanso da capital, a dupla mansidão do seu gabinete onde tudo esqueceria, o tempo suspenso no ar com os outros iguais a ele em desqualificação e vadiagem, de costas voltadas para a linha de fogo, todos diluídos no escuro, esperando que disparasse uma máquina fotográfica mas de repente o que viam era uma pedra a partir da minha mão, ou nem viam, porque para eles eu também era escuro, também estava misturado com o escuro da noite, e a pedra a mesma coisa; apenas ele, o ministro, sentia o embate, confuso por não ter visto disparar nenhum flash e a pensar que ia ter uma foto para a capa de uma revista ou para a primeira página de um jornal, com sorte uma foto em que haveria chamas como pano de fundo. Mas afinal, fundo, apenas o fundo do vale, para onde ele ia com um galo na cabeça, e depois ainda tinha um bom bocado para andar até ao sítio onde o motorista o esperava.
(…)
Excerto de «Uma Noite com o Fogo», págs. 60 a 62
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09/07/2009

O primeiro capítulo

O pequeno texto de entrada do romance «Uma Noite com o Fogo» já tinha sido colocado aqui. Deixo agora o primeiro capítulo.
(Foto de Rui André, Verão de 2003)
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Era o fogo. Andava à solta nos montes, embora visto dali, a uns cinquenta quilómetros de distância, parecesse apenas uma lâmpada enorme, de luz avermelhada, para iluminar as terras em redor. Ou um sinal. Talvez pudesse parecer isso também, um sinal para os barcos que andassem do outro lado, perto da costa. Eu imaginava estas coisas para o clarão do fogo, até que fosse um aviso para os aviões que sobrevoassem de noite aqueles montes. Não se desse o caso de irem eles lá bater, no sítio que passava dos novecentos metros, no que por pouco não atingia os oitocentos ou até noutro qualquer com menos ilusões de chegar às nuvens. A minha imaginação com os montes, as nuvens e os aviões, depois dos barcos perto da costa. Eu estava na berma da estrada, fora do carro, no primeiro sítio de onde tinha conseguido avistar o clarão. Era pouco mais de meia-noite, a fazer fé no que mostrava o relógio do carro. Lembrei-me de que naquele mesmo sítio tinha estado parado uns dias antes, noutra viagem para sul, ainda de dia, ao fim da tarde. Uma viagem calma, interrompida tantas vezes só porque me apetecia ficar a observar alguma coisa, ou tirar uma fotografia, e interrompida mais uma vez por causa de um rebanho de ovelhas; atravessava a estrada sob a orientação de um pastor agarrado a um papelão com quatro letras mal desenhadas a formarem a palavra «stop». Eu tinha ficado bem um quarto de hora à espera de que o rebanho acabasse de passar, sempre com o pastor a tentar apressar as ovelhas e com três cães a ajudarem. Primeiro as ovelhas a esforçarem-se, destrambelhadas, parecendo que avançavam por cima umas das outras, mas depois tudo muito mais lento. O rebanho a estreitar, a estreitar, até se tornar numa fila. As ovelhas, também uns poucos carneiros e alguns borregos, tudo em fila, com o pastor tão impaciente como eu e sempre de papelão bem levantado. A fila dos animais doentes, uns coxos, outros com um bocado de uma pata em falta, outros apoquentados por males ainda piores. E eu a ver, dentro do carro, sem me lembrar de nada que pudesse fazer para retomar a marcha.
Uma coincidência, apenas isso. O lugar da passagem demorada das ovelhas, o lugar do pastor com o papelão do «stop», era o mesmo de onde eu tinha acabado de perceber o clarão do fogo. Agora nada me impedia de prosseguir com o carro acelerado, nada a não ser o clarão. Ele é que me fazia estar ali parado, para ver se acreditava, ou talvez na esperança de que ao fim de uns minutos acabaria por desaparecer. Tentei perceber se de lá, dos montes, vinha apenas aquela imagem, ou se vinha mais alguma coisa. Pensei em fagulhas, mas logo disse para mim próprio que não poderiam chegar tão longe. Se o clarão não fosse avermelhado, se fosse mais de tons amarelos, talvez eu acabasse por pensar que do outro lado dos montes toda a terra até ao mar era ocupada por uma cidade, uma metrópole gigantesca, um mundo feito de luz. Mas não, o tom avermelhado não deixava adivinhar nenhuma cidade, só se fosse o próprio inferno. O inferno uma cidade... Lembrei-me disso. Lembrei-me da minha ideia do inferno, a que tinha desde a infância, uma cidade moderna, com muitos prédios, ou antes, com arranha-céus – talvez a expressão mais adequada para o caso. Era uma cidade sempre com pessoas de um lado para o outro, e com automóveis, bicicletas, autocarros, comboios, o diabo a quatro. Só que era tudo vermelho e nalguns sítios um pouco enegrecido. A cidade ardia mas nada se queimava, como se o fogo fizesse as vezes do ar e toda a gente, tal como os animais e as plantas, respirasse o ar das próprias chamas. O ar sempre a tremer… Era assim que eu imaginava o inferno, desde a minha infância, a partir de umas referências desordenadas que tinha ouvido uma vez a um padre que aparecia na vila sempre nas mesmas alturas do ano, quando era preciso fazer mais confissões; um padre de rosto tenebroso e modos bruscos conhecido simplesmente como «o franciscano».
Mas do outro lado dos montes não estava o inferno, estavam cidades só que cidades normais, e vilas e aldeias, também elas normais. O inferno, se se quisesse falar de inferno, devia estar apenas nos próprios montes. Era aí que eu tinha de chegar, e para isso bastava-me voltar ao carro e conduzir durante mais trinta ou quarenta minutos. Foi o que fiz, voltei ao carro, e sempre de olho no clarão, que se mostrava imóvel. Podia até pensar-se num gigante adormecido no meio do escuro, lá bem alto, e ainda longe. Mas eu sabia que não era um gigante adormecido. De resto, sabia poucas coisas mais... O que me tinha dito a minha mãe, e as palavras apressadas do meu irmão, para o telemóvel, já comigo em viagem; ele a dizer que andava de um lado para o outro à procura de um carro de bombeiros para levar para os montes e que depois, aí, provavelmente estaria incontactável por falta de rede. Nos montes não havia antenas das operadoras de telemóveis, e se houvesse até já poderiam ter sido tomadas de assalto pelo fogo, que nesse caso pouco mais haveria de deixar do que ferros retorcidos cobertos pela cinza. Eu tinha tentado falar com o meu irmão depois daquela chamada, mas dava sempre sinal de o telemóvel estar desligado. Imaginava-o pelas estradas de terra com um carro de bombeiros, porque eu achava que ele tinha conseguido arranjar um, não sabia como, mas achava que sim. Daí a pouco eu próprio poderia ver esse carro e talvez até ajudar a apagar as chamas com uma das mangueiras.
Tinha acabado de deixar a estrada secundária e conduzia já pelo itinerário principal, que seguia para sul quase paralelo à auto-estrada. Uns trinta quilómetros, não mais, era o que eu tinha de percorrer até chegar ao desvio para uma estrada nova que entrava mesmo pelos montes onde o fogo parecia mandar. O clarão continuava à minha frente, cada vez a mostrar-se maior e mais acentuado. Eu ia a conduzir muito depressa, mas nem me apercebia disso. Era aquela imagem do clarão que me fazia acelerar, como se apenas ela comandasse o meu cérebro, ou como se comandasse directamente o carro, sem que eu ali fosse necessário para nada. Fui tomando consciência da velocidade aos poucos, com as ultrapassagens, pela tranquilidade que notava nos carros que como o meu seguiam para sul. Não eram muitos àquela hora. Avistava um e em meia dúzia de segundos ele ficava para trás; sempre a mesma coisa, a cada carro, até que reparei nos números a que chegava o painel indicador da velocidade.
Fiquei assustado, percebi que ia completamente descontrolado, longe de qualquer prudência; e ainda fiquei pior ao avistar à minha frente o desvio para a estrada nova por onde haveria de chegar aos montes. Não esperava vê-lo assim tão depressa, por isso aquele trajecto desde a saída da estrada secundária em que por vezes atravessavam ovelhas só poderia ter sido feito na velocidade inconfessável que o painel exibia. Mais do que uma irresponsabilidade, tinha sido uma estupidez, grande, muito grande, capaz de em dois ou três segundos fixar-me o destino no tronco de alguma árvore, ou no fundo de uma ribanceira. Levantei lentamente o pé do acelerador, como se uma coisa fosse o susto e outra a reacção a esse mesmo susto, e o carro pareceu ir acalmando, devagar, para atingir uma velocidade de bicicleta. Tanto que à chegada ao desvio até um cão que correu de cabeça perdida desde um casebre próximo – um cão preto, enorme, muito gordo, de olhos verdes bem acesos –, até ele mesmo com a sua movimentação atabalhoada quase conseguia abocanhar o carro num dos pneus.

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05/07/2009

A águia de fogo

(…) Uma fagulha, foi no que pensei. Só que uma fagulha enorme. E os gritos… Um desespero… Eu não me lembrava de ter alguma vez ouvido uma águia de noite. Um ponto de fogo no céu, a aproximar-se muito depressa, com os gritos a soarem cada vez mais desesperados.
Uma águia… Era uma águia a arder. Uma águia a voar e com o fogo nas penas. Como poderia ela voar? (…)

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Excerto de «Uma Noite com o Fogo», pág. 120
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23/06/2009

Onde arde aquele fogo

Trabalho de Nuno Costa, do jornal «Barlavento», sobre o romance «Uma Noite com o Fogo», disponível aqui aqui.
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«Apesar de a obra não especificar onde arde aquele fogo, é fácil perceber que se trata da Serra de Monchique…»
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11/06/2009

Encher o presente de memórias

O António Souto leu o romance «Uma Noite com o Fogo»; fala dele aqui.
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Revi-me em «Uma Noite com o Fogo», que (…) pude ler/ sorver em largos excursos pela infância, com eucaliptais em labaredas, sinos a rebate pela noite dentro e cheiro a queimado pelo sono todo. Uma narrativa que me encheu o presente de memórias e me permitiu reconhecer a idade.
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28/05/2009

O campo de batalha

(Foto de Rui André, Verão de 2003)
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18/05/2009

Na feira

Sobre a sessão de autógrafos na Feira do Livro de Lisboa do romance «Uma Noite com o Fogo», ver aqui.
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06/05/2009

Uma crítica

Uma crítica publicada pela revista «Os Meus Livros» (ed. Maio 09), assinada por Ana Morgado.
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Memórias em chamas
É de proximidade que se trata. A proximidade à terra da sua infância, a proximidade das chamas nos montes, a proximidade do escuro, das sombras e dos sons indecifráveis. Não sabemos em que ponto do mapa lavra este incêndio, mas estamos lá a torcer por este homem de quem nem o nome sabemos.
São páginas preenchidas com as horas que ele dedica a combater e compreender o fogo que lavra pela serra tão perto do povoado, da azenha da sua avó, da adega onde morreu o avô. São os medronheiros e os sobreiros, os eucaliptos e os amieiros das suas memórias que ele não quer perder nas cinzas.
Natural de Monchique, tantas vezes fustigada pelos incêndios, António Manuel Venda faz um exercício catártico por meio de um herói incansável que, sozinho boa parte do tempo, sem outras personagens que não o fogo e o verde imenso que consome, vagueia cima abaixo sem se render. É um belíssimo monólogo interior que vive de episódios singelos, como o do escalavardo queimado, que ele confunde com um Rasputine de longas barbas, ou o da águia que se debate no ar com as chamas nas asas.
No fim, a rendição; a entrega das armas – enxadas, picaretas e baldes que se recolhem à caixa aberta da carrinha, impotentes contra aquele lume que alastra indomável. E, no entanto, a mim ficou-me a sensação de missão cumprida.
Estrelas Quatro e meia em cinco.
Prós A escrita cuidada; a minúcia das descrições.
Contras Nada assinalável.
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O fumo e o fogo

(Fotos de Rui André, Verão de 2003)
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02/05/2009

Apresentação em Faro

Texto de José Carlos Vilhena Mesquita (na foto) sobre o romance «Uma Noite com o Fogo» (ed. Quetzal). O texto serviu de suporte à apresentação feita em Faro, a 24 de Abril de 2009, na livraria Pátio das Letras. José Carlos Vilhena Mesquita é professor da Universidade do Algarve e presidente da Associação dos Jornalistas e Escritores do Algarve (AJEA).
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«Uma Noite com o Fogo», de António Manuel Venda
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É sempre um prazer falar da obra do escritor António Manuel Venda, um dos mais jovens e promissores da nova vaga literária, que tem emprestado às letras nacionais o brilho do seu talento e da sua ilustração intelectual. Devo acrescentar que o que mais me impressiona na sua forma de ser e de estar, assim como na sua personalidade de escritor, é a sua intrínseca e natural simplicidade, o seu espírito humilde e discreto, assim como a feição despretensiosa como encara o sucesso da sua obra e da sua relevante posição no contexto da moderna literatura portuguesa. Esses são apenas aspectos pessoais e muito particulares do homem/ autor, que se reflectem e evidenciam na sua escrita e no seu próprio processo de criação narrativa, sendo, em minha opinião, de uma desconcertante simplicidade na forma como escolhe as palavras mais comuns para construir um texto muito difícil de elaborar, mas fácil de entender. Esta simbiose da facilidade da escrita e da compreensão do discurso narrativo faz com que a sua obra literária se torne muito acessível e de apetecível leitura, sobretudo para o público jovem.
O livro «Uma Noite com o Fogo» está integralmente redigido num discurso indirecto livre, que no caso presente constitui um recurso literário, ou uma estratégia de construção estilística, muito difícil de conceber e até mesmo muito raro de se ver no actual panorama da nossa literatura. Em todo o caso, o autor faz uso constante das exclamações, das interrogações, das reticências e dos localizadores temporais e espaciais que denunciam a presença do «eu», aliás sempre recorrente e quase omnipresente na construção diegética da obra. Este recurso ao «eu» denuncia claramente a existência de uma trindade diegética, consubstanciada na simultaneidade do autor, do narrador e da personagem principal numa só figura – o «eu». E na construção desse «eu» surgem como aglutinadores do discurso indirecto os verbos declarativos, sendo que os processos de subordinação desaparecem neste modo discursivo, fundindo-se a voz do narrador com a personagem principal, como se falassem ambas em simultâneo. Mas, no fundo, o que torna este livro numa obra de singular relevância é a sua formulação narrativa, assente numa consistente estrutura sintáctica e numa bem concebida elaboração frásica, em cujo âmago sobressai a sua construção semiótica, atribuindo um forte pendor simbólico aos pequenos enfoques em que decorre a acção diegética. Por outro lado, todo o livro é trespassado por constantes retrocessos no processo narrativo, entre o passado da meninice do narrador/ personagem, pleno de bucolismo e ingenuidade, em contraste com o tempo presente, cujo ambiente social e cuja envolvência natural se foi desgastando e adulterando no assoberbante vórtice materialista da vida moderna.
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Uma obra independente
Dificilmente se pode classificar esta obra do ponto de vista estético. Não segue correntes nem estilos predefinidos. Ao contrário do que acontece nas obras anteriores, António Manuel Venda distancia-se em «Uma Noite com o Fogo» da estética neo-realista, tão do seu gosto literário, para fazer uma breve incursão pelo romance experimental da nova vaga anglo-saxónica. Daí que seja difícil de definir ou de enquadrar esta obra numa corrente estética reconhecida, pelo que a melhor maneira de a classificar será precisamente considerá-la como obra independente, livre e sem alinhados clichés estéticos, fugindo assim aos modelos literários e a outros figurinos academicamente estabelecidos.
Este livro é acima de tudo uma obra de arte, esboçada numa pintura de emoções e de sobressaltos, na qual sobressai avassaladora a luz do fogo, entrecortada pela tisne penumbra dos fumos e das cinzas que cobrem de horrendo negrume a noite de todos os desafios e de todos os desencantos. Neste quadro já não se vislumbra a outrora verdejante paisagem da serra algarvia, mas vê-se em traço impressionista a exasperada e indignada luta do autor contra um cenário de catástrofe, que se torna insuperável devido à falta de concertação de meios e de união de esforços para compor com outras tintas um panorama cenatório de heróicos sucessos humanos. O que inflama este livro é precisamente a centelha de génio de António Manuel Venda, cuja indefinida corrente estética faz transparecer um estilo muito peculiar, estruturalmente descritivo com movimentações bruscas e muito imprevisíveis, mas intrinsecamente pictórico, numa espécie de naturalismo pós-milenarista, transfigurando a placidez dos seres e dos espaços naturais em fantásticas mutações oníricas, sem serem terrificamente intranquilas ou pavorosas. Bem pelo contrário, a sua criatividade literária revela-se numa acentuada imaginação estética, muito forte e diversificada em subterfúgios cinéfilos e em fobias de íntimo psicologismo.
No meu conceito, António Manuel Venda é um escritor da dialéctica espiritual, em toda a plenitude desse aparente contra-senso, cuja obra «Uma Noite com o Fogo» é sumamente difícil de qualificar, pois que não sendo um livro de contos, nem de crónicas, nem de ensaios, também não é uma novela nem um romance, na verdadeira acepção teórica desse género literário. Por necessidade de funcionalidade analítica, digamos que se trata de uma crónica-romanceada, na qual o texto descritivo supera claramente o narrativo, obliterando o uso de personagens, suprimindo as localizações físicas, omitindo as referências cronológicas e preterindo os conflitos socioeconómicos para construir um romance que, não sendo de intervenção, é acima de tudo uma obra de arte.
Não existe no livro um único diálogo, um único momento em que o autor recorra ao discurso directo, talvez porque também nele não existam personagens, nem mesmo pessoas, identificadas com nomes próprios. Nada neste livro está identificado, nem no tempo nem no espaço, certamente para que o leitor não se distraia nem se afaste do centro fulcralizador da narrativa – o fogo na floresta. Muito embora não se identifique o lugar onde decorre a acção diegética, deduz-se não só pelas origens do autor como ainda pelos constantes feedbacks autobiográficos que se trata da Serra de Monchique. Percebe-se que é nas terras do seu berço, porque no início do livro o autor-narrador-personagem dirige-se no seu automóvel a grande velocidade para sul, deixando para trás o Alentejo, correndo na direcção dos montes da sua infância, sugestionado pelas dramáticas imagens da floresta em chamas que pouco antes haviam sido difundidas pela televisão.
Tudo o que se vê e sente neste livro é a percepção da dramática falta de meios, e da natural insuficiência humana, na luta contra o fogo. São as chamas diabolicamente a lavrar na serra, como se fossem um indestrutível e incontrolável monstro, a cuja avassaladora força e impiedosa devastação se submetem a exuberante, mas indefesa, natureza e as populações locais, cujos bens, e por vezes, até as próprias vidas, se perdem numa luta titânica contra a força dos elementos, que nem o engenho nem a bravura humana conseguem superar.
O fogo assume neste livro um enquadramento preponderante, no espaço cenático e na construção diegética, desenvolvendo-se por vezes ao nível de uma personagem que se transfigura entre uma luminosa referência no horizonte e uma dócil linha de fogo, que rasteja aos pés do narrador para logo se transmutar num mar de alterosas labaredas, que tudo devora e devasta numa impiedosa onda de cinzas e calcinados destroços. O fogo é como que a personagem superestrutural da obra. É nele que se materializa a violência, o desastre, a morte e a devastação, numa concentração activa contra a própria natureza, o ambiente e a floresta, numa espécie de trindade dos elementos, que em Monchique dá o cerne e a vida àquele povo e àquele território. O espectro do fogo e da incineração da Serra de Monchique tem sido ao longo de séculos uma ameaça constante, um traiçoeiro inimigo, um monstro terrífico e catastrófico que tudo reduz a cinzas, transformando a beleza natural dos ricos montados de sobro, das florestas de pinheiros e de castanheiros, em horrendos campos de escombros e cinzas.
Desde há séculos que a riqueza do povo monchiquense se tem estribado na produção agro-pecuária e numa prolífera indústria florestal, mercê de um microclima favorável à silvicultura. Por isso não admira que o tema principal do livro tivesse incidido precisamente na dramática descrição do devastador incêndio ali ocorrido (neste caso em 2004), que durante dias lavrou impiedosamente por toda a serra, reduzindo a cinzas uma vasta concentração florestal formada por diversas espécies arbóreas, algumas delas únicas e insubstituíveis, cujo repovoamento e substituição ocupará várias décadas e algumas gerações até que definitivamente se volte a reconstituir na sua plenitude.
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Personagens intradiegéticas
Neste livro as personagens são figuras literárias, embora não sejam pessoas nem propriamente personagens narrativas, mas antes espaços, contornos, delineamentos de cenas dramáticas, sem sangue nem violência humana, mas antes com o dramatismo da destruição plena e irreversível do fogo na floresta, o que dá às figuras do romance uma personalização muito especial e muito activa naquilo a que podemos designar por «cenas de fulgor», isto é, os momentos em que a narrativa chama o leitor para o centro da acção diegética, fazendo-o sentir a experiência e a dramatização do quadro literário.
Dado que as personagens deste romance adquirem pouca expressividade literária, até porque se confundem com a triangulação do autor-narrador-personagem, pois que lhe são próximas das suas memórias de infância, ou que lhe são íntimas como é o caso dos seus familiares, percebe-se que são personagens de opaca identidade ou de esbatida descrição física e de sofrível afirmação psicológica. Podemos mesmo afirmar que neste livro as personagens não são proeminentes nem afirmativas, permanentes ou insistentes, sendo simplesmente meros suportes da narrativa, quase figurantes secundários, uma espécie de dramatis personae num palco desprovido de um multiforme enquadramento cenático. Por outro lado, o tempo da acção diegética é também triangular e pluridimensionado entre o passado e o presente e – aqui é que está a diferença – a inexistência do futuro, aliás impossibilitado pela devastação do fogo.
É curioso que neste livro o tempo diegético constitui uma espécie de fusão das diferentes dimensões do próprio tempo, que se espraia, se confunde e se mescla numa sucessão interactiva entre tempo biológico, tempo psicológico, tempo histórico e tempo ontológico. O poliedro construído no cerne da narrativa entre o tempo, a sua duração e a sua sucessão põe por vezes em dúvida ou em confusão as noções de início e de fim, de presente e de passado, esbatendo-se as suas naturais coordenadas de espaço e de referencial, dando azo a que a narrativa assuma uma certa autonomização de linguagem, não só para a concepção do espaço recente, ausente e irreal, como ainda para a sua distanciação tridimensional entre o passado, o presente e o narrador-personagem. Isso vê-se ou constata-se em momentos fulcrais da narrativa, quando a imaginação do narrador resvala para o fantástico, confundindo a realidade com a fantasia, construindo um diálogo surdo mas visivelmente sensorial entre personagens reais e irreais, numa dinâmica multifronte e inapreensível.
Salta à mente do leitor a necessidade de reflectir, como participante intradiegético, num processo de autognose individual e intimista sobre o devir do ser humano, sobre o ambiente que o rodeia e sobre a preservação do património natural, que não lhe pertence, mas que é um legado a ser integralmente transmitido às gerações vindouras.
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A terminar
Devo ainda acrescentar que esta obra não se integra no realismo urbano dos romances anteriores de António Manuel Venda, mas antes numa espécie de naturalismo burguês telúrico, pois que a narrativa é concebida pelo autor-personagem, que se ausentou do espaço natural que lhe foi berço para o centro urbano e burguês, onde fez a sua formação intelectual e a sua adaptação ao espírito materialista dominante, no qual se adapta mas que repudia em face das referências naturalistas, sinceras, desinteressadas e solidárias, onde fez a sua socialização primacial.
O autor-narrador-personagem regressa neste livro ao espaço natural das suas origens, que descreve aliás como sendo o espaço da interacção moral entre o sacrifício do trabalho árduo, a coragem solidária, a honradez social, a ética espiritual e fraterna, contra o egoísmo do materialismo insensível e desumanizante. O cerne principal da obra é o ambiente natural da Serra de Monchique, em toda a sua plenitude, sendo por demais evidente que António Manuel Venda faz a descrição da envolvente biodiversidade da fauna e da flora como alguém que conhece ao pormenor os diferentes elementos naturalistas, enumerando distintas espécies arbóreas, como amieiros, sobreiros, azinheiras, medronheiros, castanheiros e pinheiros, em cujo ambiente é sempre possível que o leitor seja confrontado com episódios de imaginosa fantasia, entre o pícaro e o trágico, como a descrição de perigosas alclaras, fugidios texugos e javalis, moribundos escalavardos, misturados com o espectro fantasmagórico de um «Rasputine a preto e branco», que presumo venha a ser aproveitado para um próximo romance, à imagem do «mágico velhinho» de livros anteriores.