27/08/2009

A história do cágado, de Almada Negreiros

(…) Eu não sabia por que é que pensava na história do cágado e do homem muito senhor da sua vontade, a única de que tinha gostado verdadeiramente no livro de contos e novelas do autor de «A Invenção do Dia Claro». Não sabia, mas pensava. O homem a desistir da procura, a tapar o buraco, a remover a terra da imensa montanha que involuntariamente tinha levantado, até que da terra da primeira pazada, a da primeira vez em que tinha cravado a pá no chão, dessa terra aparecia o cágado. No meio da confusão que reinava no centro de comando das operações de combate ao fogo, eu pensava na história do homem muito senhor da sua vontade que de repente se punha à procura de um cágado e por causa disso ia até ao outro lado do mundo. Seguia o meu irmão, já de volta à carrinha, de certeza porque também ele achava que nada havia a fazer naquele lugar. Eu estava ali mas ao mesmo tempo não estava. Pensava nas peripécias do conto escrito pelo autor de «A Invenção do Dia Claro», quase que o lia, numa recordação de várias leituras que tinha feito dele. (…)
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Excerto de «Uma Noite com o Fogo», pág. 138
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(Imagem: José Sobral de Almada Negreiros, 1893-1970, auto-retrato)
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A foto da capa

(Foto de Rui André, Verão de 2003)
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25/08/2009

Sozinho

(…) O que eu esperava era encontrar um enorme corrupio por ali, carros de bombeiros, ou de particulares que andassem também no combate às chamas; até algumas viaturas distintas de políticos nem por sonhos dignos de distinção, ou algum helicóptero mais destemido para se aventurar à noite pelos ares pintados de vermelho. E jornalistas, também jornalistas, sobretudo se houvesse políticos. Mas não. Nada. Ninguém. Por mais que forçasse a vista, eu não descobria nenhum sinal capaz de contrariar a ideia que entretanto tinha ido formando ao percorrer a estrada nova: estava sozinho. (…)
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Excerto de «Uma Noite com o Fogo», págs. 15 e 16
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(Foto de Rui André, Verão de 2003)
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14/08/2009

Rasputine a preto e branco

(…) Estava em campo aberto, desprotegido se me atirassem alguma coisa, até uma bala, podiam disparar contra mim, mas por outro lado sentia que ali em campo aberto talvez controlasse melhor um ataque directo. Alguém que corresse para mim teria de ficar visível durante uns segundos, percorrer alguns metros até me alcançar. Mesmo que fosse o homem com figura de Rasputine a preto e branco. (…)
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Excerto de «Uma Noite com o Fogo», pág. 43
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10/08/2009

O jornal dos dias úteis na república

(…) Para pedir milagres talvez valesse a pena pedir logo um maior a ver se pegava, um milagre que fizesse o ribeiro desatar a correr pela encosta acima até à linha de fogo, e aí separar-se, meio ribeiro para um lado, meio ribeiro para o outro, sobre a linha de fogo, e depois de apagá-la as águas, as que não se evaporassem na luta com as chamas, essas águas valentes haveriam de descer apressadas pelos montes abaixo até ao vale, e aí o ribeiro correria novamente, depois daquele milagre de que muito se falaria. Quem sabe até se falaria dele nalgum ministério onde tratassem do combate aos incêndios, talvez até fosse parar ao jornal que nos dias úteis a república fazia publicar, e quem sabe algum figurão dos que nos fogos não apareciam, ou apareciam de longe e com jornalistas em redor, de preferência com transmissão directa – rádios e televisões –, talvez algum desses assinasse no fim, não como era conhecido mas com o nome completo; talvez assinasse depois de um arrazoado de difícil compreensão até à terceira leitura, que os ribeiros, sim, apenas esses, porque com rios era perigoso, pela dimensão do caudal, mas ribeiros sim, e até outros cursos de água menores, barrancos, regatos, os regos das águas das hortas, qualquer um servia, era legal, podiam ir todos em força correr para onde as chamas ardiam, bastava que se desse o milagre que a lei não proibia, que até incentivava, e se fosse preciso algum subsídio das europas para ajudar a água a subir os montes também se tratava de tudo, mais papel menos papel, papeladas, sempre as putas, perdão, que esse termo nunca seria aceite no jornal editado pela república, quando muito o raio das papeladas; e lá iam os cursos de água do ribeiro acabar com as chamas, iam direitos a elas, às putas das chamas, perdão, ao raio das chamas, direitinhos, não se punham à espera no sítio por onde corriam, nem operavam os milagres em direcção às estradas de alcatrão para só aí anularem as chamas, se pudessem, como era permitido e ordenado às águas que saíam das mangueiras dos autotanques.
(…)

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Excerto de «Uma Noite com o Fogo», págs. 76 e 77
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02/08/2009

O homem do copo de whisky

(…) A certa altura, talvez fosse ali, ou talvez fosse na própria recordação do conto, havia um outro homem, aos ziguezagues, de fato e gravata, e sempre aos berros. Dava ordens por todo o centro de comando das operações de combate ao fogo, dava ordens a quase toda a gente, e quase toda a gente parecia obedecer-lhe, de cabeça em baixo. Havia pessoas com a língua de fora, e algumas delas tinham a cabeça tão em baixo que se quisessem podiam com a língua tocar nas botas do homem aos berros que ziguezagueava. O homem dava ordens, ali ou no conto de Almada Negreiros, eu nem sabia, o que sabia é que ele dava ordens, de copo de whisky na mão.
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Excerto de «Uma Noite com o Fogo», pág. 139
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31/07/2009

Duas sessões de autógrafos no Algarve

Este Sábado, um de Agosto, duas sessões de autógrafos do romance «Uma Noite com o Fogo», ambas no Algarve, em feiras do livro. Às 17H00 em Faro, no Fórum Algarve; às 21H30 em Portimão, na zona ribeirinha da cidade.

29/07/2009

O arco-íris da noite

(…) Um arco-íris da noite, foi do que me lembrei, foi a ideia que tive. Aquelas cores a misturarem-se bem à minha frente, sem a forma de um arco-íris, mas eram um arco-íris da noite. Pequeno, muito pequeno, ali entre as minhas mãos (…)
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Excerto de «Uma Noite com o Fogo», pág. 97

27/07/2009

O clarão

Estava no clarão. Bem no meio dele. Depois dos primeiros quilómetros pela estrada nova, ainda numa zona plana, eu tinha começado a subida. Uns minutos apenas e de repente a sensação que agora continuava, a da entrada com o carro no meio do clarão que antes tinha visto sempre bem à minha frente. O gigante que de longe me parecia compacto e adormecido, ali, já nos primeiros montes da serra, revelava-se muito diferente. (…)
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Excerto de «Uma Noite com o Fogo», pág. 15
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(Foto de Rui André, Verão de 2003)
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15/07/2009

Um ministro derrubado à pedrada

(…) E logo a seguir atirei a pedra, com força, tanta força que a vi desaparecer no escuro e só uns segundos depois me chegou o barulho dela a atravessar a ramagem dos amieiros e depois a embater com força na água do ribeiro. Não tinha acertado em nenhum daqueles idiotas que esperavam uma fotografia. Ou então tinha e o barulho na ramagem e depois na água, afinal, tinha sido o idiota atingido a cair ao mesmo tempo da pedra. Era um pensamento, uma espécie de sonho imaginado, momentâneo, agora já a parecer-me diferente dos outros sonhos confusos que me invadiam por vezes o sono. Como eu gostaria de que fosse verdade, que aqueles vândalos estivessem todos ali alinhados e que eu pudesse acabar com a sua incompetência acertando com uma pedra em cada um, uma coisa ligeira, apenas que os tocasse e fizesse com que saíssem dos lugares de empecilho de que eram senhores. Que pudessem ir para casa, cada um para a sua, se não houvesse casos em que partilhassem, nem eu me arriscava a dizer por via de que relações. Lá iam eles para casa, apenas com um galo na cabeça para não se esquecerem de como eram verdadeiramente desqualificados. Um ministro, por exemplo, se lá estivesse – tinha de estar, pelo menos aquele que eu uma vez, cerca de um ano antes, tinha ouvido discursar nas calmas para os deputados da república enquanto ardia uma aldeia a não muitos quilómetros dali –, um ministro até podia depois de aterrar no ribeiro, levantar-se, passar as mãos pelo corpo a ver se não tinha nada partido, e depois andava uns metros até à levada e ia pela parede sempre a par do ribeiro, no sentido em que as águas corriam e em cinco ou dez minutos chegaria à aldeia da antiga casa da minha avó, onde a levada embocava na represa. E aí era só andar mais uns metros que no escuro da noite lá estaria o carro com o motorista para levá-lo para o remanso da capital, a dupla mansidão do seu gabinete onde tudo esqueceria, o tempo suspenso no ar com os outros iguais a ele em desqualificação e vadiagem, de costas voltadas para a linha de fogo, todos diluídos no escuro, esperando que disparasse uma máquina fotográfica mas de repente o que viam era uma pedra a partir da minha mão, ou nem viam, porque para eles eu também era escuro, também estava misturado com o escuro da noite, e a pedra a mesma coisa; apenas ele, o ministro, sentia o embate, confuso por não ter visto disparar nenhum flash e a pensar que ia ter uma foto para a capa de uma revista ou para a primeira página de um jornal, com sorte uma foto em que haveria chamas como pano de fundo. Mas afinal, fundo, apenas o fundo do vale, para onde ele ia com um galo na cabeça, e depois ainda tinha um bom bocado para andar até ao sítio onde o motorista o esperava.
(…)
Excerto de «Uma Noite com o Fogo», págs. 60 a 62
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09/07/2009

O primeiro capítulo

O pequeno texto de entrada do romance «Uma Noite com o Fogo» já tinha sido colocado aqui. Deixo agora o primeiro capítulo.
(Foto de Rui André, Verão de 2003)
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Era o fogo. Andava à solta nos montes, embora visto dali, a uns cinquenta quilómetros de distância, parecesse apenas uma lâmpada enorme, de luz avermelhada, para iluminar as terras em redor. Ou um sinal. Talvez pudesse parecer isso também, um sinal para os barcos que andassem do outro lado, perto da costa. Eu imaginava estas coisas para o clarão do fogo, até que fosse um aviso para os aviões que sobrevoassem de noite aqueles montes. Não se desse o caso de irem eles lá bater, no sítio que passava dos novecentos metros, no que por pouco não atingia os oitocentos ou até noutro qualquer com menos ilusões de chegar às nuvens. A minha imaginação com os montes, as nuvens e os aviões, depois dos barcos perto da costa. Eu estava na berma da estrada, fora do carro, no primeiro sítio de onde tinha conseguido avistar o clarão. Era pouco mais de meia-noite, a fazer fé no que mostrava o relógio do carro. Lembrei-me de que naquele mesmo sítio tinha estado parado uns dias antes, noutra viagem para sul, ainda de dia, ao fim da tarde. Uma viagem calma, interrompida tantas vezes só porque me apetecia ficar a observar alguma coisa, ou tirar uma fotografia, e interrompida mais uma vez por causa de um rebanho de ovelhas; atravessava a estrada sob a orientação de um pastor agarrado a um papelão com quatro letras mal desenhadas a formarem a palavra «stop». Eu tinha ficado bem um quarto de hora à espera de que o rebanho acabasse de passar, sempre com o pastor a tentar apressar as ovelhas e com três cães a ajudarem. Primeiro as ovelhas a esforçarem-se, destrambelhadas, parecendo que avançavam por cima umas das outras, mas depois tudo muito mais lento. O rebanho a estreitar, a estreitar, até se tornar numa fila. As ovelhas, também uns poucos carneiros e alguns borregos, tudo em fila, com o pastor tão impaciente como eu e sempre de papelão bem levantado. A fila dos animais doentes, uns coxos, outros com um bocado de uma pata em falta, outros apoquentados por males ainda piores. E eu a ver, dentro do carro, sem me lembrar de nada que pudesse fazer para retomar a marcha.
Uma coincidência, apenas isso. O lugar da passagem demorada das ovelhas, o lugar do pastor com o papelão do «stop», era o mesmo de onde eu tinha acabado de perceber o clarão do fogo. Agora nada me impedia de prosseguir com o carro acelerado, nada a não ser o clarão. Ele é que me fazia estar ali parado, para ver se acreditava, ou talvez na esperança de que ao fim de uns minutos acabaria por desaparecer. Tentei perceber se de lá, dos montes, vinha apenas aquela imagem, ou se vinha mais alguma coisa. Pensei em fagulhas, mas logo disse para mim próprio que não poderiam chegar tão longe. Se o clarão não fosse avermelhado, se fosse mais de tons amarelos, talvez eu acabasse por pensar que do outro lado dos montes toda a terra até ao mar era ocupada por uma cidade, uma metrópole gigantesca, um mundo feito de luz. Mas não, o tom avermelhado não deixava adivinhar nenhuma cidade, só se fosse o próprio inferno. O inferno uma cidade... Lembrei-me disso. Lembrei-me da minha ideia do inferno, a que tinha desde a infância, uma cidade moderna, com muitos prédios, ou antes, com arranha-céus – talvez a expressão mais adequada para o caso. Era uma cidade sempre com pessoas de um lado para o outro, e com automóveis, bicicletas, autocarros, comboios, o diabo a quatro. Só que era tudo vermelho e nalguns sítios um pouco enegrecido. A cidade ardia mas nada se queimava, como se o fogo fizesse as vezes do ar e toda a gente, tal como os animais e as plantas, respirasse o ar das próprias chamas. O ar sempre a tremer… Era assim que eu imaginava o inferno, desde a minha infância, a partir de umas referências desordenadas que tinha ouvido uma vez a um padre que aparecia na vila sempre nas mesmas alturas do ano, quando era preciso fazer mais confissões; um padre de rosto tenebroso e modos bruscos conhecido simplesmente como «o franciscano».
Mas do outro lado dos montes não estava o inferno, estavam cidades só que cidades normais, e vilas e aldeias, também elas normais. O inferno, se se quisesse falar de inferno, devia estar apenas nos próprios montes. Era aí que eu tinha de chegar, e para isso bastava-me voltar ao carro e conduzir durante mais trinta ou quarenta minutos. Foi o que fiz, voltei ao carro, e sempre de olho no clarão, que se mostrava imóvel. Podia até pensar-se num gigante adormecido no meio do escuro, lá bem alto, e ainda longe. Mas eu sabia que não era um gigante adormecido. De resto, sabia poucas coisas mais... O que me tinha dito a minha mãe, e as palavras apressadas do meu irmão, para o telemóvel, já comigo em viagem; ele a dizer que andava de um lado para o outro à procura de um carro de bombeiros para levar para os montes e que depois, aí, provavelmente estaria incontactável por falta de rede. Nos montes não havia antenas das operadoras de telemóveis, e se houvesse até já poderiam ter sido tomadas de assalto pelo fogo, que nesse caso pouco mais haveria de deixar do que ferros retorcidos cobertos pela cinza. Eu tinha tentado falar com o meu irmão depois daquela chamada, mas dava sempre sinal de o telemóvel estar desligado. Imaginava-o pelas estradas de terra com um carro de bombeiros, porque eu achava que ele tinha conseguido arranjar um, não sabia como, mas achava que sim. Daí a pouco eu próprio poderia ver esse carro e talvez até ajudar a apagar as chamas com uma das mangueiras.
Tinha acabado de deixar a estrada secundária e conduzia já pelo itinerário principal, que seguia para sul quase paralelo à auto-estrada. Uns trinta quilómetros, não mais, era o que eu tinha de percorrer até chegar ao desvio para uma estrada nova que entrava mesmo pelos montes onde o fogo parecia mandar. O clarão continuava à minha frente, cada vez a mostrar-se maior e mais acentuado. Eu ia a conduzir muito depressa, mas nem me apercebia disso. Era aquela imagem do clarão que me fazia acelerar, como se apenas ela comandasse o meu cérebro, ou como se comandasse directamente o carro, sem que eu ali fosse necessário para nada. Fui tomando consciência da velocidade aos poucos, com as ultrapassagens, pela tranquilidade que notava nos carros que como o meu seguiam para sul. Não eram muitos àquela hora. Avistava um e em meia dúzia de segundos ele ficava para trás; sempre a mesma coisa, a cada carro, até que reparei nos números a que chegava o painel indicador da velocidade.
Fiquei assustado, percebi que ia completamente descontrolado, longe de qualquer prudência; e ainda fiquei pior ao avistar à minha frente o desvio para a estrada nova por onde haveria de chegar aos montes. Não esperava vê-lo assim tão depressa, por isso aquele trajecto desde a saída da estrada secundária em que por vezes atravessavam ovelhas só poderia ter sido feito na velocidade inconfessável que o painel exibia. Mais do que uma irresponsabilidade, tinha sido uma estupidez, grande, muito grande, capaz de em dois ou três segundos fixar-me o destino no tronco de alguma árvore, ou no fundo de uma ribanceira. Levantei lentamente o pé do acelerador, como se uma coisa fosse o susto e outra a reacção a esse mesmo susto, e o carro pareceu ir acalmando, devagar, para atingir uma velocidade de bicicleta. Tanto que à chegada ao desvio até um cão que correu de cabeça perdida desde um casebre próximo – um cão preto, enorme, muito gordo, de olhos verdes bem acesos –, até ele mesmo com a sua movimentação atabalhoada quase conseguia abocanhar o carro num dos pneus.

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05/07/2009

A águia de fogo

(…) Uma fagulha, foi no que pensei. Só que uma fagulha enorme. E os gritos… Um desespero… Eu não me lembrava de ter alguma vez ouvido uma águia de noite. Um ponto de fogo no céu, a aproximar-se muito depressa, com os gritos a soarem cada vez mais desesperados.
Uma águia… Era uma águia a arder. Uma águia a voar e com o fogo nas penas. Como poderia ela voar? (…)

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Excerto de «Uma Noite com o Fogo», pág. 120
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23/06/2009

Onde arde aquele fogo

Trabalho de Nuno Costa, do jornal «Barlavento», sobre o romance «Uma Noite com o Fogo», disponível aqui aqui.
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«Apesar de a obra não especificar onde arde aquele fogo, é fácil perceber que se trata da Serra de Monchique…»
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11/06/2009

Encher o presente de memórias

O António Souto leu o romance «Uma Noite com o Fogo»; fala dele aqui.
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Revi-me em «Uma Noite com o Fogo», que (…) pude ler/ sorver em largos excursos pela infância, com eucaliptais em labaredas, sinos a rebate pela noite dentro e cheiro a queimado pelo sono todo. Uma narrativa que me encheu o presente de memórias e me permitiu reconhecer a idade.
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28/05/2009

18/05/2009

Na feira

Sobre a sessão de autógrafos na Feira do Livro de Lisboa do romance «Uma Noite com o Fogo», ver aqui.
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06/05/2009

Uma crítica

Uma crítica publicada pela revista «Os Meus Livros» (ed. Maio 09), assinada por Ana Morgado.
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Memórias em chamas
É de proximidade que se trata. A proximidade à terra da sua infância, a proximidade das chamas nos montes, a proximidade do escuro, das sombras e dos sons indecifráveis. Não sabemos em que ponto do mapa lavra este incêndio, mas estamos lá a torcer por este homem de quem nem o nome sabemos.
São páginas preenchidas com as horas que ele dedica a combater e compreender o fogo que lavra pela serra tão perto do povoado, da azenha da sua avó, da adega onde morreu o avô. São os medronheiros e os sobreiros, os eucaliptos e os amieiros das suas memórias que ele não quer perder nas cinzas.
Natural de Monchique, tantas vezes fustigada pelos incêndios, António Manuel Venda faz um exercício catártico por meio de um herói incansável que, sozinho boa parte do tempo, sem outras personagens que não o fogo e o verde imenso que consome, vagueia cima abaixo sem se render. É um belíssimo monólogo interior que vive de episódios singelos, como o do escalavardo queimado, que ele confunde com um Rasputine de longas barbas, ou o da águia que se debate no ar com as chamas nas asas.
No fim, a rendição; a entrega das armas – enxadas, picaretas e baldes que se recolhem à caixa aberta da carrinha, impotentes contra aquele lume que alastra indomável. E, no entanto, a mim ficou-me a sensação de missão cumprida.
Estrelas Quatro e meia em cinco.
Prós A escrita cuidada; a minúcia das descrições.
Contras Nada assinalável.
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O fumo e o fogo

(Fotos de Rui André, Verão de 2003)
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02/05/2009

Apresentação em Faro

Texto de José Carlos Vilhena Mesquita (na foto) sobre o romance «Uma Noite com o Fogo» (ed. Quetzal). O texto serviu de suporte à apresentação feita em Faro, a 24 de Abril de 2009, na livraria Pátio das Letras. José Carlos Vilhena Mesquita é professor da Universidade do Algarve e presidente da Associação dos Jornalistas e Escritores do Algarve (AJEA).
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«Uma Noite com o Fogo», de António Manuel Venda
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É sempre um prazer falar da obra do escritor António Manuel Venda, um dos mais jovens e promissores da nova vaga literária, que tem emprestado às letras nacionais o brilho do seu talento e da sua ilustração intelectual. Devo acrescentar que o que mais me impressiona na sua forma de ser e de estar, assim como na sua personalidade de escritor, é a sua intrínseca e natural simplicidade, o seu espírito humilde e discreto, assim como a feição despretensiosa como encara o sucesso da sua obra e da sua relevante posição no contexto da moderna literatura portuguesa. Esses são apenas aspectos pessoais e muito particulares do homem/ autor, que se reflectem e evidenciam na sua escrita e no seu próprio processo de criação narrativa, sendo, em minha opinião, de uma desconcertante simplicidade na forma como escolhe as palavras mais comuns para construir um texto muito difícil de elaborar, mas fácil de entender. Esta simbiose da facilidade da escrita e da compreensão do discurso narrativo faz com que a sua obra literária se torne muito acessível e de apetecível leitura, sobretudo para o público jovem.
O livro «Uma Noite com o Fogo» está integralmente redigido num discurso indirecto livre, que no caso presente constitui um recurso literário, ou uma estratégia de construção estilística, muito difícil de conceber e até mesmo muito raro de se ver no actual panorama da nossa literatura. Em todo o caso, o autor faz uso constante das exclamações, das interrogações, das reticências e dos localizadores temporais e espaciais que denunciam a presença do «eu», aliás sempre recorrente e quase omnipresente na construção diegética da obra. Este recurso ao «eu» denuncia claramente a existência de uma trindade diegética, consubstanciada na simultaneidade do autor, do narrador e da personagem principal numa só figura – o «eu». E na construção desse «eu» surgem como aglutinadores do discurso indirecto os verbos declarativos, sendo que os processos de subordinação desaparecem neste modo discursivo, fundindo-se a voz do narrador com a personagem principal, como se falassem ambas em simultâneo. Mas, no fundo, o que torna este livro numa obra de singular relevância é a sua formulação narrativa, assente numa consistente estrutura sintáctica e numa bem concebida elaboração frásica, em cujo âmago sobressai a sua construção semiótica, atribuindo um forte pendor simbólico aos pequenos enfoques em que decorre a acção diegética. Por outro lado, todo o livro é trespassado por constantes retrocessos no processo narrativo, entre o passado da meninice do narrador/ personagem, pleno de bucolismo e ingenuidade, em contraste com o tempo presente, cujo ambiente social e cuja envolvência natural se foi desgastando e adulterando no assoberbante vórtice materialista da vida moderna.
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Uma obra independente
Dificilmente se pode classificar esta obra do ponto de vista estético. Não segue correntes nem estilos predefinidos. Ao contrário do que acontece nas obras anteriores, António Manuel Venda distancia-se em «Uma Noite com o Fogo» da estética neo-realista, tão do seu gosto literário, para fazer uma breve incursão pelo romance experimental da nova vaga anglo-saxónica. Daí que seja difícil de definir ou de enquadrar esta obra numa corrente estética reconhecida, pelo que a melhor maneira de a classificar será precisamente considerá-la como obra independente, livre e sem alinhados clichés estéticos, fugindo assim aos modelos literários e a outros figurinos academicamente estabelecidos.
Este livro é acima de tudo uma obra de arte, esboçada numa pintura de emoções e de sobressaltos, na qual sobressai avassaladora a luz do fogo, entrecortada pela tisne penumbra dos fumos e das cinzas que cobrem de horrendo negrume a noite de todos os desafios e de todos os desencantos. Neste quadro já não se vislumbra a outrora verdejante paisagem da serra algarvia, mas vê-se em traço impressionista a exasperada e indignada luta do autor contra um cenário de catástrofe, que se torna insuperável devido à falta de concertação de meios e de união de esforços para compor com outras tintas um panorama cenatório de heróicos sucessos humanos. O que inflama este livro é precisamente a centelha de génio de António Manuel Venda, cuja indefinida corrente estética faz transparecer um estilo muito peculiar, estruturalmente descritivo com movimentações bruscas e muito imprevisíveis, mas intrinsecamente pictórico, numa espécie de naturalismo pós-milenarista, transfigurando a placidez dos seres e dos espaços naturais em fantásticas mutações oníricas, sem serem terrificamente intranquilas ou pavorosas. Bem pelo contrário, a sua criatividade literária revela-se numa acentuada imaginação estética, muito forte e diversificada em subterfúgios cinéfilos e em fobias de íntimo psicologismo.
No meu conceito, António Manuel Venda é um escritor da dialéctica espiritual, em toda a plenitude desse aparente contra-senso, cuja obra «Uma Noite com o Fogo» é sumamente difícil de qualificar, pois que não sendo um livro de contos, nem de crónicas, nem de ensaios, também não é uma novela nem um romance, na verdadeira acepção teórica desse género literário. Por necessidade de funcionalidade analítica, digamos que se trata de uma crónica-romanceada, na qual o texto descritivo supera claramente o narrativo, obliterando o uso de personagens, suprimindo as localizações físicas, omitindo as referências cronológicas e preterindo os conflitos socioeconómicos para construir um romance que, não sendo de intervenção, é acima de tudo uma obra de arte.
Não existe no livro um único diálogo, um único momento em que o autor recorra ao discurso directo, talvez porque também nele não existam personagens, nem mesmo pessoas, identificadas com nomes próprios. Nada neste livro está identificado, nem no tempo nem no espaço, certamente para que o leitor não se distraia nem se afaste do centro fulcralizador da narrativa – o fogo na floresta. Muito embora não se identifique o lugar onde decorre a acção diegética, deduz-se não só pelas origens do autor como ainda pelos constantes feedbacks autobiográficos que se trata da Serra de Monchique. Percebe-se que é nas terras do seu berço, porque no início do livro o autor-narrador-personagem dirige-se no seu automóvel a grande velocidade para sul, deixando para trás o Alentejo, correndo na direcção dos montes da sua infância, sugestionado pelas dramáticas imagens da floresta em chamas que pouco antes haviam sido difundidas pela televisão.
Tudo o que se vê e sente neste livro é a percepção da dramática falta de meios, e da natural insuficiência humana, na luta contra o fogo. São as chamas diabolicamente a lavrar na serra, como se fossem um indestrutível e incontrolável monstro, a cuja avassaladora força e impiedosa devastação se submetem a exuberante, mas indefesa, natureza e as populações locais, cujos bens, e por vezes, até as próprias vidas, se perdem numa luta titânica contra a força dos elementos, que nem o engenho nem a bravura humana conseguem superar.
O fogo assume neste livro um enquadramento preponderante, no espaço cenático e na construção diegética, desenvolvendo-se por vezes ao nível de uma personagem que se transfigura entre uma luminosa referência no horizonte e uma dócil linha de fogo, que rasteja aos pés do narrador para logo se transmutar num mar de alterosas labaredas, que tudo devora e devasta numa impiedosa onda de cinzas e calcinados destroços. O fogo é como que a personagem superestrutural da obra. É nele que se materializa a violência, o desastre, a morte e a devastação, numa concentração activa contra a própria natureza, o ambiente e a floresta, numa espécie de trindade dos elementos, que em Monchique dá o cerne e a vida àquele povo e àquele território. O espectro do fogo e da incineração da Serra de Monchique tem sido ao longo de séculos uma ameaça constante, um traiçoeiro inimigo, um monstro terrífico e catastrófico que tudo reduz a cinzas, transformando a beleza natural dos ricos montados de sobro, das florestas de pinheiros e de castanheiros, em horrendos campos de escombros e cinzas.
Desde há séculos que a riqueza do povo monchiquense se tem estribado na produção agro-pecuária e numa prolífera indústria florestal, mercê de um microclima favorável à silvicultura. Por isso não admira que o tema principal do livro tivesse incidido precisamente na dramática descrição do devastador incêndio ali ocorrido (neste caso em 2004), que durante dias lavrou impiedosamente por toda a serra, reduzindo a cinzas uma vasta concentração florestal formada por diversas espécies arbóreas, algumas delas únicas e insubstituíveis, cujo repovoamento e substituição ocupará várias décadas e algumas gerações até que definitivamente se volte a reconstituir na sua plenitude.
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Personagens intradiegéticas
Neste livro as personagens são figuras literárias, embora não sejam pessoas nem propriamente personagens narrativas, mas antes espaços, contornos, delineamentos de cenas dramáticas, sem sangue nem violência humana, mas antes com o dramatismo da destruição plena e irreversível do fogo na floresta, o que dá às figuras do romance uma personalização muito especial e muito activa naquilo a que podemos designar por «cenas de fulgor», isto é, os momentos em que a narrativa chama o leitor para o centro da acção diegética, fazendo-o sentir a experiência e a dramatização do quadro literário.
Dado que as personagens deste romance adquirem pouca expressividade literária, até porque se confundem com a triangulação do autor-narrador-personagem, pois que lhe são próximas das suas memórias de infância, ou que lhe são íntimas como é o caso dos seus familiares, percebe-se que são personagens de opaca identidade ou de esbatida descrição física e de sofrível afirmação psicológica. Podemos mesmo afirmar que neste livro as personagens não são proeminentes nem afirmativas, permanentes ou insistentes, sendo simplesmente meros suportes da narrativa, quase figurantes secundários, uma espécie de dramatis personae num palco desprovido de um multiforme enquadramento cenático. Por outro lado, o tempo da acção diegética é também triangular e pluridimensionado entre o passado e o presente e – aqui é que está a diferença – a inexistência do futuro, aliás impossibilitado pela devastação do fogo.
É curioso que neste livro o tempo diegético constitui uma espécie de fusão das diferentes dimensões do próprio tempo, que se espraia, se confunde e se mescla numa sucessão interactiva entre tempo biológico, tempo psicológico, tempo histórico e tempo ontológico. O poliedro construído no cerne da narrativa entre o tempo, a sua duração e a sua sucessão põe por vezes em dúvida ou em confusão as noções de início e de fim, de presente e de passado, esbatendo-se as suas naturais coordenadas de espaço e de referencial, dando azo a que a narrativa assuma uma certa autonomização de linguagem, não só para a concepção do espaço recente, ausente e irreal, como ainda para a sua distanciação tridimensional entre o passado, o presente e o narrador-personagem. Isso vê-se ou constata-se em momentos fulcrais da narrativa, quando a imaginação do narrador resvala para o fantástico, confundindo a realidade com a fantasia, construindo um diálogo surdo mas visivelmente sensorial entre personagens reais e irreais, numa dinâmica multifronte e inapreensível.
Salta à mente do leitor a necessidade de reflectir, como participante intradiegético, num processo de autognose individual e intimista sobre o devir do ser humano, sobre o ambiente que o rodeia e sobre a preservação do património natural, que não lhe pertence, mas que é um legado a ser integralmente transmitido às gerações vindouras.
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A terminar
Devo ainda acrescentar que esta obra não se integra no realismo urbano dos romances anteriores de António Manuel Venda, mas antes numa espécie de naturalismo burguês telúrico, pois que a narrativa é concebida pelo autor-personagem, que se ausentou do espaço natural que lhe foi berço para o centro urbano e burguês, onde fez a sua formação intelectual e a sua adaptação ao espírito materialista dominante, no qual se adapta mas que repudia em face das referências naturalistas, sinceras, desinteressadas e solidárias, onde fez a sua socialização primacial.
O autor-narrador-personagem regressa neste livro ao espaço natural das suas origens, que descreve aliás como sendo o espaço da interacção moral entre o sacrifício do trabalho árduo, a coragem solidária, a honradez social, a ética espiritual e fraterna, contra o egoísmo do materialismo insensível e desumanizante. O cerne principal da obra é o ambiente natural da Serra de Monchique, em toda a sua plenitude, sendo por demais evidente que António Manuel Venda faz a descrição da envolvente biodiversidade da fauna e da flora como alguém que conhece ao pormenor os diferentes elementos naturalistas, enumerando distintas espécies arbóreas, como amieiros, sobreiros, azinheiras, medronheiros, castanheiros e pinheiros, em cujo ambiente é sempre possível que o leitor seja confrontado com episódios de imaginosa fantasia, entre o pícaro e o trágico, como a descrição de perigosas alclaras, fugidios texugos e javalis, moribundos escalavardos, misturados com o espectro fantasmagórico de um «Rasputine a preto e branco», que presumo venha a ser aproveitado para um próximo romance, à imagem do «mágico velhinho» de livros anteriores.

28/04/2009

De uma leitora

Texto recebido por e-mail, de uma leitora de «Uma Noite com o Fogo».
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Uma narrativa essencialmente autobiográfica, que se não foi vivida, pelo menos deixa o leitor convencido disso, pois existe uma harmónica concatenação entre história e discurso. O fogo, motivo central da descrição, é dado a observar com tal realismo que consegue despertar todos os sentidos. Para além da permanente visualização dos factos, quase que sentimos o efeito das fagulhas, que se aproximam e caem perto de nós, e o crepitar produzido consegue ser tão bem descrito que parece que ouvimos e cheiramos a madeira a ser consumida pelas chamas.
São pois apresentadas imagens de grande realismo, que nos confrontam com o fogo, sempre personagem central da obra e que nos vai surgindo multifacetada, nunca causando cansaço ao longo da sua apresentação em cento e tantas páginas...
A narrativa vai sendo cortada por alguns momentos de maior tensão, alguns de verdadeiro suspense para quem vai assistido à evolução daquele fogo incontrolável e que parece não ir ter fim.
Descortinei, ainda, para lá do «real», alguns momentos de fantasia, pequenos leit motiv introduzidos com muita perícia e magia.
Apesar da temática ser una, «o fogo», senti-me sempre entusiasmada com todo o evoluir, com as pequenas e eventuais paragens ou quaisquer outras peripécias introduzidas magistralmente a propósito.
Não conheço outras obras do autor, embora o meu filho já me tenha informado serem de cariz diferente. Esta, contudo, revela-se cheia de individualidade, longe de grandes tiradas linguísticas (que não viriam nada a propósito), escolhendo formas e esquemas combinatórios que exprimem sempre a mensagem com exactidão.
O estilo é transparente, acessível e límpido, para além do qual se vislumbra uma personalidade cheia de capacidade de observação e não menor capacidade criativa.
Toda a descrição do fogo é autêntica, real, convincente, surgindo de quando em onde pinceladas de fantasia produto do poder criativo.
Em alguns momentos, podemos ainda descortinar alguns apontamentos críticos, só «visíveis» para os mais atentos.
Maria Teresa Dinis
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27/04/2009

O cágado

Pode ler-se aqui, o conto de Almada Negreiros que eu próprio conto na parte final do romance «Uma Noite com o Fogo».
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07/04/2009

Autoficção

Texto de Manuel Nunes, no seu blogue «Disperso Escrevedor», sobre o romance «Uma Noite com o Fogo».
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O romance «Uma Noite com o Fogo», de António Manuel Venda, é o relato de uma experiência vivida, ideia sustentada pela epígrafe de Mario Quintana: «O autor nada mais fez do que vestir a verdade…».
Porém, a experiência vivida não é descrita como numa simples crónica. A verdade dramática vestida pelo autor não prescinde da ficção, esse canto de sereia em que acreditamos como se fosse a realidade pura.
É essa mistura de referencialidade e imaginação que nos leva a classificar o texto de António Manuel Venda como uma autoficção, designação de género definida basicamente como um relato de conteúdo simultaneamente autobiográfico e romanesco em que se regista identificação nominal entre autor, narrador e protagonista.
Apesar de em «Uma Noite com o Fogo» essa identificação não ser explícita, a sobreposição daquelas três instâncias não deixa de estar presente ao longo de todo o texto. Percebe-se bem de onde e para onde viaja o protagonista naquela noite em que o fogo andou à solta. Percebe-se bem onde ficam aqueles montes de sobreiros e medronheiros assolados pela fúria das chamas. Na personagem que se defronta com o fogo não conseguimos ver outra figura que não seja a do próprio autor, lá na serra algarvia onde nasceu e onde viveu os tempos da infância e da juventude, a tal floresta do sul que deu nome ao seu blogue – uma floresta destroçada pela incúria de todos, não só dos que se sentam nas cadeiras do poder.
O tempo da história resume-se a uma única noite, o suficiente para emocionar o leitor, tanto pelo combate desproporcionado contra a calamidade natural (?), como pela intervenção frequente da memória autoral numa espécie de «recherche du temps perdu» – um mergulho no mundo da infância e da inocência perdida.
Um livro muito interessante de António Manuel Venda, dentro do género a que nos habituou, tão raro, por enquanto, nas nossas letras.
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Em Loulé

Estive na noite da passada quinta-feira na Biblioteca Municipal de Loulé para uma apresentação do romance «Uma Noite com o Fogo». Foi no âmbito do clube de leitura daquela biblioteca, com os membros presentes e a apresentação a ser feita por Adriana Freire Nogueira, professora da Universidade do Algarve e moderadora do clube (coordenado por Rita Moreira, da própria biblioteca). Uma apresentação longa, minuciosa, perspicaz, bem-disposta e extremamente inteligente; foi o que me pareceu. E também – se calhar até mais importante –, uma apresentação que em determinadas alturas me surpreendeu, e que deveras me tocou; como a participação de alguns dos membros do clube. Eu sabia que ia correr bem, pois de todos os sítios onde já estive por causa dos livros Loulé é daqueles onde fui mais bem recebido. Era a terceira vez que ia ao concelho (tinha estado uma vez na biblioteca a falar do romance «O Medo Longe de Ti» e outra num debate em Quarteira, sobre literatura), e por isso sentia-me tranquilo. Mas esta apresentação deixou-me verdadeiramente atrapalhado, obrigou-me até a disfarçar alguma comoção que de vez em quando se apoderava de mim. Vendo as coisas agora, fica-me na memória como algo muito bonito que me aconteceu.
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06/04/2009

Uma pintura do fogo

Ofereceram-me esta pintura, feita sobre um mosaico, no final da apresentação que fiz há dias na Escola Secundária de Pinheiro e Rosa, em Faro, sobre os livros da minha vida (ver aqui). Disseram-me que a escolheram por causa do romance «Uma Noite com o Fogo».
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03/04/2009

Pequeno relato

Um pequeno relato da apresentação do romance em Lisboa, aqui (o terceiro comentário).
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Mais um comentário

Recebido por e-mail, da minha amiga Márcia Trigo, que leu o romance esta semana.

Acabo de ler o seu «Uma Noite com Fogo». É um livro que nos agarra do início ao fim, tal como o fogo que tão bem relata. Eu também vivi esta experiência numa aldeia transmontana, onde aconteciam fogos que o povo todo apagava (incluindo meninos e meninas bem pequenos), ao som dos sinos da igreja a «tocarem longa e doridamente»... Sem bombeiros, aviões ou outras ajudas. Revejo-me na sua escrita, nas suas emoções, na sua solidariedade com as pessoas, na sua raiva contida. Num mundo a arder, este livro tem de ser lido por todos e devia ser obrigatório na escola para todos. Gostei muito, muito.
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02/04/2009

Apresentação em Lisboa

Foi ontem ao fim da tarde, na Livraria Bertrand da Avenida de Roma, em Lisboa. A primeira apresentação do romance «Uma Noite com o Fogo». Nas duas fotos de cima, além de Carlos Pinto Coelho (que fez a apresentação) e de mim, pode ver-se à esquerda (de pé) Cristina Piedade, responsável pela livraria e pelos eventos nas livrarias Bertrand em Lisboa, e à direita (sentada) Lúcia Pinho e Melo, editora da Quetzal.
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31/03/2009

Três apresentações

Três apresentações do romance «Uma Noite com o Fogo»:
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- Quarta-feira, 01 de Abril, 18h30, na Livraria Bertrand da Avenida de Roma, em Lisboa (apresentação de Carlos Pinto Coelho);
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- Quinta-feira, 02 de Abril, 21h30, na Biblioteca Municipal de Loulé (apresentação de Adriana Freire Nogueira);
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- Sexta-feira, 24 Abril, 21h30, na Livraria Pátio das Letras, em Faro (apresentação de José Vilhena Mesquita).
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27/03/2009

Uma recomendação

Pequeno texto, de Sílvia Souto Cunha, saído na revista «Visão» (26.03.09, «livros recomendados»), sobre o romance «Uma Noite com o Fogo».
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Diz o autor que este livro vivia dentro dele há anos. Como a casa da infância, apetece dizer. Um livro que foi acordado por uma notícia na televisão: o lugar da sua infância estava cercado pelas chamas. Daqui se parte para um conflito ficcional com as labaredas que têm devastado Portugal (e não só) como um súbito inimigo. Por entre estevas, eucaliptal, montanhas a arderem, descreve-se o confronto desigual de pequenos Davids, armados de enxadas e baldes, contra Golias. De perto, sem o filtro protector do rodapé noticioso.
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22/03/2009

21/03/2009

Pequeno texto

Pequeno texto de Fernando Sobral sobre o romance «Uma Noite com o Fogo». Foi publicado ontem no «Jornal de Negócios».
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O fogo tudo destrói e tudo pode ajudar a reconstruir. Mas o fogo é, também, a dor instalada na alma dos homens. Tudo isso parece transparecer neste livro de António Manuel Venda, um dos mais talentosos romancistas nacionais dos últimos anos. A escrita de Venda é uma homenagem a um mundo que vai desaparecendo em Portugal (o interior), mas não é um imenso adeus. É uma despedida, sempre a penúltima, porque a ele regressa sempre, como o narrador deste livro. O fogo encurrala-o nas suas memórias de um tempo antes dele. O olhar do narrador é digital: os pormenores dos sentimentos profundos dos homens estão todos lá. O fogo queima e ilumina a escrita de Venda.
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19/03/2009

Um texto

Um texto sobre o romance «Uma Noite com o Fogo» foi publicado aqui, no «Diário Digital». É da autoria do jornalista Pedro Justino Alves.
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Por dentro dos incêndios
«Uma Noite com o Fogo», obra de António Manuel Venda editada pela Quetzal, aborda um tema pouco comum na nossa literatura, embora seja um tema frequente nas nossas vidas pelo menos durante os meses quentes do ano: os incêndios. Só por isso já merece um destaque…
Falar de um assunto que afecta milhares de pessoas, directa e indirectamente, não é tarefa fácil. Ainda mais quando o assunto deixa marcas profundas em quem viveu essas experiências. Infelizmente, os incêndios são tema recorrente nos noticiários nacionais, principalmente no pico do Verão, quando, atónitos, ouvimos de tudo um pouco, críticas, palavras de esperança, desespero e, muitas vezes, apenas silêncio, silêncio daqueles que não compreendem porque estão a viver um autêntico inferno.
«Uma Noite com o Fogo» consegue transmitir um pouco desse drama, já que a sua totalidade só saberá aquele que o viveu. E, por muito que se domine a arte de juntar palavras, nunca ninguém será capaz de transmitir verdadeiramente aquilo que sentiu.
O livro decorre numa única noite. Depois de ver pela televisão o local onde passou a sua infância atacado pelo fogo, o narrador parte de imediato ao encontro das suas raízes. Não sabe por quê, responde apenas a um impulso, mas parte. O primeiro impacto com o fogo, talvez o principal personagem do livro, surge no mesmo local onde dias antes tinha ficado parado devido à passagem de um rebanho de ovelhas, num dia calmo, «(uma viagem) interrompida tantas vezes só porque me apetecia ficar a observar alguma coisa, ou tirar uma fotografia…» (página 11)
«Uma Noite com o Fogo» vive essencialmente das memórias do narrador, da dor de ver parte da sua infância tomada pelo fogo e da sua luta por manter vivo o que as chamas anseiam por destruir.
Quando chega ao seu destino, dá-se a desilusão de se encontrar sozinho, sem «carros de bombeiros, ou de particulares que andassem também no combate às chamas; até algumas viaturas distintas de políticos nem por sonhos dignos de distinção, ou algum helicóptero mais destemido para se aventurar à noite pelos ares pintados de vermelho. E jornalistas, também jornalistas, sobretudo se houvesse políticos. Mas não. Nada. Ninguém.» (páginas 15/ 16)
A dor, a raiva e o desespero invariavelmente aumentam, ainda mais porque o narrador procura o seu irmão, que também está a combater o fogo no mesmo local, mas não no mesmo espaço que ele. Se antes o silêncio nocturno dominava o monte, agora é o barulho do mato a arder que comanda os seus pensamentos, que vagueiam pelas memórias das dores da avó, pela ponte que unia os montes, a fobia de apanhar uma chave, o cheiro da azenha, os estudos…
«Uma Noite com o Fogo» questiona também as decisões dos bombeiros e as «baboseiras» dos políticos, sempre ávidos de aparecerem. Nas páginas 56/ 57 o autor coloca uma pergunta que alimenta muitas mentes que já viveram o drama dos incêndios:
«Como era possível deixar o fogo à solta, esperá-lo apenas no recato das estradas nacionais, no alcatrão por onde fugir seria apenas uma questão de segundos? Esperá-lo aí, num descanso, até que ele chegasse, depois de tudo ter queimado, deixando atrás de si o chão coberto de cinza e troncos das árvores que fossem capazes de aguentar-se de pé, todos secos, com as pernadas que conseguissem manter, secas elas também, até com as folhas que se aguentassem, inevitavelmente secas? Quase a superfície de outro planeta, isso deixaria o fogo atrás de si…»
Após encontrar o irmão, ambos partem para essa luta solitária contra o fogo, semelhante à de milhares de outros que nos incêndios que têm devastado o país procuram combater o monstro de inúmeros tentáculos, que absorve tudo à sua frente.
O livro é antes de tudo um grito de raiva contra a incapacidade política para resolver uma questão que todos já sabem que se irá repetir, um grito de revolta perante aquilo que os incêndios roubam às vidas das pessoas.
Principalmente o seu passado…
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13/03/2009

Apresentação em Lisboa

É já no próximo dia um de Abril, ao fim da tarde (18h30), na Bertrand da Avenida de Roma. Apresentação de Carlos Pinto Coelho. Apesar da data, é mesmo verdade.
(clicar na imagem para aumentar)

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10/03/2009

Um comentário

Recebido por e-mail, do meu amigo Mário Ceitil, que já leu o romance «Uma Noite com o Fogo».
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A sensação que me fica é a de que é realmente preciso ter imaginação para fazer um romance sobre um episódio de incêndio. Por outro lado, é muito curiosa a maneira como é colocado o fogo como elemento desencadeador do «incêndio mnésico» do autor, como se a desordem e o caos exterior «ateassem» o fluxo emocional e o fizessem irromper pelos territórios da memória.
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07/03/2009

«Uma Noite com o Fogo» e «A Viagem do Elefante»

Ver aqui (primeiro comentário).
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A equipa de reportagem

Estava intrigado com o que tinha visto na televisão, em casa, transmitido em directo pouco mais de duas horas antes. De onde teria sido? De que monte? Teria sido mesmo daquela zona onde eu agora me encontrava, e a equipa de reportagem já se tinha ido embora?
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Excerto de «Uma Noite com o Fogo», pág. 16
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(Fotos de Rui André, Verão de 2003)
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04/03/2009

Autógrafos

Sessão de autógrafos do romance «Uma Noite com o Fogo», esta sexta-feira (21h30), na Feira do Livro do Fórum Montijo (livraria Bertrand).
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Mais referências

Mais referências a este blogue. De Luís Naves no «Corta-fitas», com palavras muito simpáticas, de Tomás Vasques no «Hoje Há Conquilhas...» e dos «Blogtailors». Muito obrigado a todos pela ajuda na divulgação do romance «Uma Noite com o Fogo».
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03/03/2009

Como um leitor viu o romance «Uma Noite com o Fogo»

Texto recebido por e-mail, de um leitor de «Uma Noite com o Fogo», visita frequente (e comentador) do meu blogue «Floresta do Sul».
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Até Quinta-feira passada, de todos os livros do autor, apenas tinha conseguido encontrar à venda os romances «O que Entra nos Livros» e «O Medo Longe de Ti». Por determinadas circunstâncias, acabei por ler esses livros por ordem inversa ao que seria desejável (primeiro «O que Entra nos Livros» e depois o outro). Gostei de ambos, muito especialmente de «O que Entra nos Livros».
Logo que li as primeiras páginas de «Uma Noite com o Fogo», apercebi-me de que estava perante uma obra extremamente bem conseguida, a vários títulos.
Cabe aqui referir que a minha apreciação é a de um simples leitor, que embora tenha lido muito desde muito novo não tem qualquer qualificação para ser crítico no sentido específico do termo.
Lembro-me muitíssimo bem das reportagens feitas na televisão, relativamente à tragédia de que trata o romance, até porque isso se passou pouco tempo depois da morte da minha mãe, que funciona como referência temporal. Para além da violência do fogo, retenho o drama de pessoas forçadas a abandonar as suas casas – algumas com muita idade – e de outras a lutarem até ao último momento para as defender.
Achei que o tema foi bem ‘agarrado’ logo desde o prólogo, com a ideia do «cinema circular» e onde verdadeiramente a história começa.
A autenticidade é evidente e não poderia ser maior. A escrita é austera, despida de adjectivações; numa palavra: escorreita. Não obstante, consegue ser comovente quando evoca as lembranças da infância, especialmente aquela subida dramática de um monte com a avó que se arrastava com dores.
A alternância entre o ‘filme’, no presente, e as lembranças de um passado já distante, acabam por se completar harmoniosamente, ao mesmo tempo que conferem profundidade à obra.
O livro, todo ele escrito na primeira pessoa, não faz uso – se bem me recordo – de qualquer diálogo, o que lhe imprime um ritmo por vezes alucinante, nos momentos de grande expectativa (suspense), especialmente naquela fase em que o narrador perde, durante algum tempo, o contacto visual com o irmão, numa situação que poderia pressagiar o pior.
O fogo está muito bem descrito nas suas diversas fases, consoante a orografia e o ‘material’ que vai encontrando pela frente, sendo de realçar a grande economia de meios (palavras) com que essa descrição é feita.
Para além do mais, o tema é indiscutivelmente de grande actualidade e interesse social; e a meu ver é pouco abordado na nossa literatura.
Não falta lá, sequer, o libelo acusatório contra os políticos e outros (ir)responsáveis/ incompetentes, que para além de nada fazerem ainda aproveitam a circunstância para engrossarem a campanha eleitoral em que estão permanente mergulhados – é essa a sua principal, para não dizer única, preocupação. E é justamente aqui que eu me atrevo a fazer o único reparo ao livro. Sem ter qualquer dúvida quanto à justeza da acusação, parece-me todavia que deveria ser um pouco mais económica no espaço que lhe é dedicado e muito mais dura no que concerne aos termos usados.
Para eles, só curto e grosso (é o meu estado de espírito, claro).
Se eu fosse produtor cinematográfico, investiria numa adaptação deste livro ao cinema, jogando na alternância entre as cenas ‘actuais’ e as evocações da infância.
Manuel Ramalhete
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01/03/2009

A linha de fogo

Uma linha quase contínua de fogo, naquela zona talvez com meio metro de altura, a progredir lentamente. Pensei que se parasse o carro e saísse para começar a apagá-la com ramagem dos eucaliptos novos, em dois ou três quartos de hora haveria de conseguir resolver o problema talvez nuns cem metros (...)

Excerto de «Uma Noite com o Fogo», pág. 16

(Fotos de Rui André, Verão de 2003)
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27/02/2009

26/02/2009

Obrigado

Ao Pedro Almeida Vieira, pelo link para este blogue do romance «Uma Noite com o Fogo» (e também para o «Floresta do Sul) no seu «Estrago da Nação» (o autor tem um novo livro, que pode ser conhecido aqui). Também ao Francisco, ao João e ao Pedro; sem esquecer a simpatia da minha editora, claro, no seu novo blogue.
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25/02/2009

Uma entrevista

Uma pequena entrevista que dei sobre o romance «Uma Noite com o Fogo» (programa «À Volta dos Livros», de Ana Aranha – Antena 1). Pode-se fazer o download ou ouvir aqui.
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24/02/2009

As chamas em fuga

De repente, como se fosse a minha imaginação a tentar enganar-me, a brincar comigo, vi as chamas a saírem de junto do ribeiro, muito depressa. Começaram a subir pela encosta, como se alguma coisa as tivesse enlouquecido. Aquele volume de chamas fugia (…)
Excerto de «Uma Noite com o Fogo», pág. 101
(Fotos de Rui André, Verão de 2003)
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23/02/2009

Um excerto

(…) um ministro até podia depois de aterrar no ribeiro, levantar-se, passar as mãos pelo corpo a ver se não tinha nada partido, e depois andava uns metros até à levada e ia pela parede sempre a par do ribeiro, no sentido em que as águas corriam, e em cinco ou dez minutos chegaria à aldeia da antiga casa da minha avó, onde a levada embocava na represa. E aí era só andar mais uns metros que no escuro da noite lá estaria o carro com o motorista para levá-lo para o remanso da capital, a dupla mansidão do seu gabinete onde tudo esqueceria, o tempo suspenso no ar com os outros iguais a ele em desqualificação e vadiagem, de costas voltadas para a linha de fogo, todos diluídos no escuro, esperando que disparasse uma máquina fotográfica mas de repente o que viam era uma pedra a partir da minha mão, ou nem viam, porque para eles eu também era escuro, também estava misturado com o escuro da noite, e a pedra a mesma coisa; apenas ele, o ministro, sentia o embate, confuso por não ter visto disparar nenhum flash e a pensar que ia ter uma foto para a capa de uma revista ou para a primeira página de um jornal, com sorte uma foto em que haveria chamas como pano de fundo. (…)
(«Uma Noite com o Fogo», pág. 61)
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O fogo

(Foto de Rui André, Verão de 2003)

A entrada

O texto de entrada do romance «Uma Noite com o Fogo», uma espécie de pré-capítulo que antecede os 26 capítulos da história.
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Há muito tempo que escrevia este livro. Alguns anos. Mas escrevia-o apenas na minha mente, com o que pensava, com tudo aquilo que ia recordando. Se tivesse conseguido reunir as palavras necessárias para contar a história, se as tivesse encontrado, escolhido, até se tivesse inventado algumas para na volta fazer boa figura, tudo haveria de ser, digamos assim, mais normal. Era uma vez… Eu, de noite, uma noite muito quente, abafada, próximo do que julgava insuportável, uma noite com o fogo. Como se vivesse sempre essa noite. Como se ela tivesse passado a existir de uma forma definitiva. Um filme a voltar inevitavelmente ao princípio. A ideia de haver um tipo de cinema circular, ou aos círculos, marcado por um momento um bocadinho forçado, mas apenas um momento, fugaz, aquele em que de repente se passava do fim para o princípio e tudo voltava a acontecer. Tudo, desde o princípio. Eu ainda em casa, depois de ligar a televisão. Teriam passado dez ou quinze segundos sobre o aparecimento das imagens no ecrã. Não mais do que isso. Era de noite na televisão, como era de noite naquele sítio, o da casa. A minha casa. Estavam em directo com as notícias. Tudo ardia, dava até a ideia de que a câmara filmava bem dentro das chamas; mas não, nem ela nem quem a segurava corriam qualquer risco. Era a objectiva que fazia o milagre, como se naquele momento não houvesse mais nada no mundo em que gastar milagres. Eu ouvia o barulho do telefone, insistente, mas não ia atender. Estava preso ao ecrã, mais do que pelas chamas, por causa da palavra que aparecia num dos cantos. O nome do lugar da minha infância. E o barulho do telefone, sem parar. Quando finalmente atendi, surgiu a voz da minha mãe. Perguntava se já sabia. Apenas isso. E eu já sabia, tinha acabado de saber. Tinha acabado de ver. O fogo. O lugar da minha infância, naquela noite, invadido pelo fogo.
É este o livro que tantas vezes escrevi dentro da cabeça. O livro aqui já com as palavras, as que antes não consegui reunir, as que durante alguns anos não encontrei, as que não fui capaz de escolher. Até as palavras que sempre me pareceram impossíveis de inventar. Ainda nem passaram duas horas sobre as imagens vistas na televisão e sobre o que escutei da minha mãe, pelo telefone. Uma boa parte do Alentejo já ficou para trás, sempre com o carro apressado nas estradas distribuídas quase ao calhas pela planície. Sempre à procura do trajecto mais a direito, uma estrada nacional, uma estrada municipal, por vezes uma que nem isso – e a auto-estrada, essa sempre a direito, longe, lá do outro lado, nada em caminho. Tenho bem à minha frente os montes que se seguem à planície, uma fronteira. Tão tarde na noite o normal seria nem conseguir vê-los. Mas vejo, vejo-os sem dificuldade, os seus contornos bem definidos. A história pode agora começar.
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Os montes

O cenário do romance «Uma Noite com o Fogo». Foto minha, feita já depois dos acontecimentos.
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O que aconteceu

Em 2003 e 2004, no Verão, grande parte da floresta da minha terra foi destruída pelo fogo. Tanto num ano como no outro as chamas andaram à solta pela serra de Monchique, e até bem para lá dos seus limites. Lembro-me de que na altura alguém me disse que eu poderia escrever sobre esses tempos terríveis. Logo pareceu-me que não, que era tudo ainda muito recente. Mas ao mesmo tempo senti que mais tarde talvez acabasse por fazê-lo. Foi já em 2008 que comecei a escrever, primeiro sem saber bem por que caminhos seguir, depois eu próprio a espantar-me com uma descoberta que fazia, a de que o romance estava a ser escrito dentro da minha cabeça desde uma noite terrível do Verão de 2004.
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