28/05/2009
18/05/2009
06/05/2009
Uma crítica
Uma crítica publicada pela revista «Os Meus Livros» (ed. Maio 09), assinada por Ana Morgado.
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Memórias em chamas
É de proximidade que se trata. A proximidade à terra da sua infância, a proximidade das chamas nos montes, a proximidade do escuro, das sombras e dos sons indecifráveis. Não sabemos em que ponto do mapa lavra este incêndio, mas estamos lá a torcer por este homem de quem nem o nome sabemos.
São páginas preenchidas com as horas que ele dedica a combater e compreender o fogo que lavra pela serra tão perto do povoado, da azenha da sua avó, da adega onde morreu o avô. São os medronheiros e os sobreiros, os eucaliptos e os amieiros das suas memórias que ele não quer perder nas cinzas.
Natural de Monchique, tantas vezes fustigada pelos incêndios, António Manuel Venda faz um exercício catártico por meio de um herói incansável que, sozinho boa parte do tempo, sem outras personagens que não o fogo e o verde imenso que consome, vagueia cima abaixo sem se render. É um belíssimo monólogo interior que vive de episódios singelos, como o do escalavardo queimado, que ele confunde com um Rasputine de longas barbas, ou o da águia que se debate no ar com as chamas nas asas.
No fim, a rendição; a entrega das armas – enxadas, picaretas e baldes que se recolhem à caixa aberta da carrinha, impotentes contra aquele lume que alastra indomável. E, no entanto, a mim ficou-me a sensação de missão cumprida.
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Memórias em chamas
É de proximidade que se trata. A proximidade à terra da sua infância, a proximidade das chamas nos montes, a proximidade do escuro, das sombras e dos sons indecifráveis. Não sabemos em que ponto do mapa lavra este incêndio, mas estamos lá a torcer por este homem de quem nem o nome sabemos.
São páginas preenchidas com as horas que ele dedica a combater e compreender o fogo que lavra pela serra tão perto do povoado, da azenha da sua avó, da adega onde morreu o avô. São os medronheiros e os sobreiros, os eucaliptos e os amieiros das suas memórias que ele não quer perder nas cinzas.
Natural de Monchique, tantas vezes fustigada pelos incêndios, António Manuel Venda faz um exercício catártico por meio de um herói incansável que, sozinho boa parte do tempo, sem outras personagens que não o fogo e o verde imenso que consome, vagueia cima abaixo sem se render. É um belíssimo monólogo interior que vive de episódios singelos, como o do escalavardo queimado, que ele confunde com um Rasputine de longas barbas, ou o da águia que se debate no ar com as chamas nas asas.
No fim, a rendição; a entrega das armas – enxadas, picaretas e baldes que se recolhem à caixa aberta da carrinha, impotentes contra aquele lume que alastra indomável. E, no entanto, a mim ficou-me a sensação de missão cumprida.
Estrelas Quatro e meia em cinco.
Prós A escrita cuidada; a minúcia das descrições.
Contras Nada assinalável.
Prós A escrita cuidada; a minúcia das descrições.
Contras Nada assinalável.
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02/05/2009
Apresentação em Faro
Texto de José Carlos Vilhena Mesquita (na foto) sobre o romance «Uma Noite com o Fogo» (ed. Quetzal). O texto serviu de suporte à apresentação feita em Faro, a 24 de Abril de 2009, na livraria Pátio das Letras. José Carlos Vilhena Mesquita é professor da Universidade do Algarve e presidente da Associação dos Jornalistas e Escritores do Algarve (AJEA)..
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«Uma Noite com o Fogo», de António Manuel Venda
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É sempre um prazer falar da obra do escritor António Manuel Venda, um dos mais jovens e promissores da nova vaga literária, que tem emprestado às letras nacionais o brilho do seu talento e da sua ilustração intelectual. Devo acrescentar que o que mais me impressiona na sua forma de ser e de estar, assim como na sua personalidade de escritor, é a sua intrínseca e natural simplicidade, o seu espírito humilde e discreto, assim como a feição despretensiosa como encara o sucesso da sua obra e da sua relevante posição no contexto da moderna literatura portuguesa. Esses são apenas aspectos pessoais e muito particulares do homem/ autor, que se reflectem e evidenciam na sua escrita e no seu próprio processo de criação narrativa, sendo, em minha opinião, de uma desconcertante simplicidade na forma como escolhe as palavras mais comuns para construir um texto muito difícil de elaborar, mas fácil de entender. Esta simbiose da facilidade da escrita e da compreensão do discurso narrativo faz com que a sua obra literária se torne muito acessível e de apetecível leitura, sobretudo para o público jovem.
O livro «Uma Noite com o Fogo» está integralmente redigido num discurso indirecto livre, que no caso presente constitui um recurso literário, ou uma estratégia de construção estilística, muito difícil de conceber e até mesmo muito raro de se ver no actual panorama da nossa literatura. Em todo o caso, o autor faz uso constante das exclamações, das interrogações, das reticências e dos localizadores temporais e espaciais que denunciam a presença do «eu», aliás sempre recorrente e quase omnipresente na construção diegética da obra. Este recurso ao «eu» denuncia claramente a existência de uma trindade diegética, consubstanciada na simultaneidade do autor, do narrador e da personagem principal numa só figura – o «eu». E na construção desse «eu» surgem como aglutinadores do discurso indirecto os verbos declarativos, sendo que os processos de subordinação desaparecem neste modo discursivo, fundindo-se a voz do narrador com a personagem principal, como se falassem ambas em simultâneo. Mas, no fundo, o que torna este livro numa obra de singular relevância é a sua formulação narrativa, assente numa consistente estrutura sintáctica e numa bem concebida elaboração frásica, em cujo âmago sobressai a sua construção semiótica, atribuindo um forte pendor simbólico aos pequenos enfoques em que decorre a acção diegética. Por outro lado, todo o livro é trespassado por constantes retrocessos no processo narrativo, entre o passado da meninice do narrador/ personagem, pleno de bucolismo e ingenuidade, em contraste com o tempo presente, cujo ambiente social e cuja envolvência natural se foi desgastando e adulterando no assoberbante vórtice materialista da vida moderna.
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Uma obra independente
Dificilmente se pode classificar esta obra do ponto de vista estético. Não segue correntes nem estilos predefinidos. Ao contrário do que acontece nas obras anteriores, António Manuel Venda distancia-se em «Uma Noite com o Fogo» da estética neo-realista, tão do seu gosto literário, para fazer uma breve incursão pelo romance experimental da nova vaga anglo-saxónica. Daí que seja difícil de definir ou de enquadrar esta obra numa corrente estética reconhecida, pelo que a melhor maneira de a classificar será precisamente considerá-la como obra independente, livre e sem alinhados clichés estéticos, fugindo assim aos modelos literários e a outros figurinos academicamente estabelecidos.
Este livro é acima de tudo uma obra de arte, esboçada numa pintura de emoções e de sobressaltos, na qual sobressai avassaladora a luz do fogo, entrecortada pela tisne penumbra dos fumos e das cinzas que cobrem de horrendo negrume a noite de todos os desafios e de todos os desencantos. Neste quadro já não se vislumbra a outrora verdejante paisagem da serra algarvia, mas vê-se em traço impressionista a exasperada e indignada luta do autor contra um cenário de catástrofe, que se torna insuperável devido à falta de concertação de meios e de união de esforços para compor com outras tintas um panorama cenatório de heróicos sucessos humanos. O que inflama este livro é precisamente a centelha de génio de António Manuel Venda, cuja indefinida corrente estética faz transparecer um estilo muito peculiar, estruturalmente descritivo com movimentações bruscas e muito imprevisíveis, mas intrinsecamente pictórico, numa espécie de naturalismo pós-milenarista, transfigurando a placidez dos seres e dos espaços naturais em fantásticas mutações oníricas, sem serem terrificamente intranquilas ou pavorosas. Bem pelo contrário, a sua criatividade literária revela-se numa acentuada imaginação estética, muito forte e diversificada em subterfúgios cinéfilos e em fobias de íntimo psicologismo.
No meu conceito, António Manuel Venda é um escritor da dialéctica espiritual, em toda a plenitude desse aparente contra-senso, cuja obra «Uma Noite com o Fogo» é sumamente difícil de qualificar, pois que não sendo um livro de contos, nem de crónicas, nem de ensaios, também não é uma novela nem um romance, na verdadeira acepção teórica desse género literário. Por necessidade de funcionalidade analítica, digamos que se trata de uma crónica-romanceada, na qual o texto descritivo supera claramente o narrativo, obliterando o uso de personagens, suprimindo as localizações físicas, omitindo as referências cronológicas e preterindo os conflitos socioeconómicos para construir um romance que, não sendo de intervenção, é acima de tudo uma obra de arte.
Não existe no livro um único diálogo, um único momento em que o autor recorra ao discurso directo, talvez porque também nele não existam personagens, nem mesmo pessoas, identificadas com nomes próprios. Nada neste livro está identificado, nem no tempo nem no espaço, certamente para que o leitor não se distraia nem se afaste do centro fulcralizador da narrativa – o fogo na floresta. Muito embora não se identifique o lugar onde decorre a acção diegética, deduz-se não só pelas origens do autor como ainda pelos constantes feedbacks autobiográficos que se trata da Serra de Monchique. Percebe-se que é nas terras do seu berço, porque no início do livro o autor-narrador-personagem dirige-se no seu automóvel a grande velocidade para sul, deixando para trás o Alentejo, correndo na direcção dos montes da sua infância, sugestionado pelas dramáticas imagens da floresta em chamas que pouco antes haviam sido difundidas pela televisão.
Tudo o que se vê e sente neste livro é a percepção da dramática falta de meios, e da natural insuficiência humana, na luta contra o fogo. São as chamas diabolicamente a lavrar na serra, como se fossem um indestrutível e incontrolável monstro, a cuja avassaladora força e impiedosa devastação se submetem a exuberante, mas indefesa, natureza e as populações locais, cujos bens, e por vezes, até as próprias vidas, se perdem numa luta titânica contra a força dos elementos, que nem o engenho nem a bravura humana conseguem superar.
O fogo assume neste livro um enquadramento preponderante, no espaço cenático e na construção diegética, desenvolvendo-se por vezes ao nível de uma personagem que se transfigura entre uma luminosa referência no horizonte e uma dócil linha de fogo, que rasteja aos pés do narrador para logo se transmutar num mar de alterosas labaredas, que tudo devora e devasta numa impiedosa onda de cinzas e calcinados destroços. O fogo é como que a personagem superestrutural da obra. É nele que se materializa a violência, o desastre, a morte e a devastação, numa concentração activa contra a própria natureza, o ambiente e a floresta, numa espécie de trindade dos elementos, que em Monchique dá o cerne e a vida àquele povo e àquele território. O espectro do fogo e da incineração da Serra de Monchique tem sido ao longo de séculos uma ameaça constante, um traiçoeiro inimigo, um monstro terrífico e catastrófico que tudo reduz a cinzas, transformando a beleza natural dos ricos montados de sobro, das florestas de pinheiros e de castanheiros, em horrendos campos de escombros e cinzas.
Desde há séculos que a riqueza do povo monchiquense se tem estribado na produção agro-pecuária e numa prolífera indústria florestal, mercê de um microclima favorável à silvicultura. Por isso não admira que o tema principal do livro tivesse incidido precisamente na dramática descrição do devastador incêndio ali ocorrido (neste caso em 2004), que durante dias lavrou impiedosamente por toda a serra, reduzindo a cinzas uma vasta concentração florestal formada por diversas espécies arbóreas, algumas delas únicas e insubstituíveis, cujo repovoamento e substituição ocupará várias décadas e algumas gerações até que definitivamente se volte a reconstituir na sua plenitude.
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Personagens intradiegéticas
Neste livro as personagens são figuras literárias, embora não sejam pessoas nem propriamente personagens narrativas, mas antes espaços, contornos, delineamentos de cenas dramáticas, sem sangue nem violência humana, mas antes com o dramatismo da destruição plena e irreversível do fogo na floresta, o que dá às figuras do romance uma personalização muito especial e muito activa naquilo a que podemos designar por «cenas de fulgor», isto é, os momentos em que a narrativa chama o leitor para o centro da acção diegética, fazendo-o sentir a experiência e a dramatização do quadro literário.
Dado que as personagens deste romance adquirem pouca expressividade literária, até porque se confundem com a triangulação do autor-narrador-personagem, pois que lhe são próximas das suas memórias de infância, ou que lhe são íntimas como é o caso dos seus familiares, percebe-se que são personagens de opaca identidade ou de esbatida descrição física e de sofrível afirmação psicológica. Podemos mesmo afirmar que neste livro as personagens não são proeminentes nem afirmativas, permanentes ou insistentes, sendo simplesmente meros suportes da narrativa, quase figurantes secundários, uma espécie de dramatis personae num palco desprovido de um multiforme enquadramento cenático. Por outro lado, o tempo da acção diegética é também triangular e pluridimensionado entre o passado e o presente e – aqui é que está a diferença – a inexistência do futuro, aliás impossibilitado pela devastação do fogo.
É curioso que neste livro o tempo diegético constitui uma espécie de fusão das diferentes dimensões do próprio tempo, que se espraia, se confunde e se mescla numa sucessão interactiva entre tempo biológico, tempo psicológico, tempo histórico e tempo ontológico. O poliedro construído no cerne da narrativa entre o tempo, a sua duração e a sua sucessão põe por vezes em dúvida ou em confusão as noções de início e de fim, de presente e de passado, esbatendo-se as suas naturais coordenadas de espaço e de referencial, dando azo a que a narrativa assuma uma certa autonomização de linguagem, não só para a concepção do espaço recente, ausente e irreal, como ainda para a sua distanciação tridimensional entre o passado, o presente e o narrador-personagem. Isso vê-se ou constata-se em momentos fulcrais da narrativa, quando a imaginação do narrador resvala para o fantástico, confundindo a realidade com a fantasia, construindo um diálogo surdo mas visivelmente sensorial entre personagens reais e irreais, numa dinâmica multifronte e inapreensível.
Salta à mente do leitor a necessidade de reflectir, como participante intradiegético, num processo de autognose individual e intimista sobre o devir do ser humano, sobre o ambiente que o rodeia e sobre a preservação do património natural, que não lhe pertence, mas que é um legado a ser integralmente transmitido às gerações vindouras.
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A terminar
Devo ainda acrescentar que esta obra não se integra no realismo urbano dos romances anteriores de António Manuel Venda, mas antes numa espécie de naturalismo burguês telúrico, pois que a narrativa é concebida pelo autor-personagem, que se ausentou do espaço natural que lhe foi berço para o centro urbano e burguês, onde fez a sua formação intelectual e a sua adaptação ao espírito materialista dominante, no qual se adapta mas que repudia em face das referências naturalistas, sinceras, desinteressadas e solidárias, onde fez a sua socialização primacial.
O autor-narrador-personagem regressa neste livro ao espaço natural das suas origens, que descreve aliás como sendo o espaço da interacção moral entre o sacrifício do trabalho árduo, a coragem solidária, a honradez social, a ética espiritual e fraterna, contra o egoísmo do materialismo insensível e desumanizante. O cerne principal da obra é o ambiente natural da Serra de Monchique, em toda a sua plenitude, sendo por demais evidente que António Manuel Venda faz a descrição da envolvente biodiversidade da fauna e da flora como alguém que conhece ao pormenor os diferentes elementos naturalistas, enumerando distintas espécies arbóreas, como amieiros, sobreiros, azinheiras, medronheiros, castanheiros e pinheiros, em cujo ambiente é sempre possível que o leitor seja confrontado com episódios de imaginosa fantasia, entre o pícaro e o trágico, como a descrição de perigosas alclaras, fugidios texugos e javalis, moribundos escalavardos, misturados com o espectro fantasmagórico de um «Rasputine a preto e branco», que presumo venha a ser aproveitado para um próximo romance, à imagem do «mágico velhinho» de livros anteriores.
28/04/2009
De uma leitora
Texto recebido por e-mail, de uma leitora de «Uma Noite com o Fogo».
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Uma narrativa essencialmente autobiográfica, que se não foi vivida, pelo menos deixa o leitor convencido disso, pois existe uma harmónica concatenação entre história e discurso. O fogo, motivo central da descrição, é dado a observar com tal realismo que consegue despertar todos os sentidos. Para além da permanente visualização dos factos, quase que sentimos o efeito das fagulhas, que se aproximam e caem perto de nós, e o crepitar produzido consegue ser tão bem descrito que parece que ouvimos e cheiramos a madeira a ser consumida pelas chamas.
São pois apresentadas imagens de grande realismo, que nos confrontam com o fogo, sempre personagem central da obra e que nos vai surgindo multifacetada, nunca causando cansaço ao longo da sua apresentação em cento e tantas páginas...
A narrativa vai sendo cortada por alguns momentos de maior tensão, alguns de verdadeiro suspense para quem vai assistido à evolução daquele fogo incontrolável e que parece não ir ter fim.
Descortinei, ainda, para lá do «real», alguns momentos de fantasia, pequenos leit motiv introduzidos com muita perícia e magia.
Apesar da temática ser una, «o fogo», senti-me sempre entusiasmada com todo o evoluir, com as pequenas e eventuais paragens ou quaisquer outras peripécias introduzidas magistralmente a propósito.
Não conheço outras obras do autor, embora o meu filho já me tenha informado serem de cariz diferente. Esta, contudo, revela-se cheia de individualidade, longe de grandes tiradas linguísticas (que não viriam nada a propósito), escolhendo formas e esquemas combinatórios que exprimem sempre a mensagem com exactidão.
O estilo é transparente, acessível e límpido, para além do qual se vislumbra uma personalidade cheia de capacidade de observação e não menor capacidade criativa.
Toda a descrição do fogo é autêntica, real, convincente, surgindo de quando em onde pinceladas de fantasia produto do poder criativo.
Em alguns momentos, podemos ainda descortinar alguns apontamentos críticos, só «visíveis» para os mais atentos.
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Uma narrativa essencialmente autobiográfica, que se não foi vivida, pelo menos deixa o leitor convencido disso, pois existe uma harmónica concatenação entre história e discurso. O fogo, motivo central da descrição, é dado a observar com tal realismo que consegue despertar todos os sentidos. Para além da permanente visualização dos factos, quase que sentimos o efeito das fagulhas, que se aproximam e caem perto de nós, e o crepitar produzido consegue ser tão bem descrito que parece que ouvimos e cheiramos a madeira a ser consumida pelas chamas.
São pois apresentadas imagens de grande realismo, que nos confrontam com o fogo, sempre personagem central da obra e que nos vai surgindo multifacetada, nunca causando cansaço ao longo da sua apresentação em cento e tantas páginas...
A narrativa vai sendo cortada por alguns momentos de maior tensão, alguns de verdadeiro suspense para quem vai assistido à evolução daquele fogo incontrolável e que parece não ir ter fim.
Descortinei, ainda, para lá do «real», alguns momentos de fantasia, pequenos leit motiv introduzidos com muita perícia e magia.
Apesar da temática ser una, «o fogo», senti-me sempre entusiasmada com todo o evoluir, com as pequenas e eventuais paragens ou quaisquer outras peripécias introduzidas magistralmente a propósito.
Não conheço outras obras do autor, embora o meu filho já me tenha informado serem de cariz diferente. Esta, contudo, revela-se cheia de individualidade, longe de grandes tiradas linguísticas (que não viriam nada a propósito), escolhendo formas e esquemas combinatórios que exprimem sempre a mensagem com exactidão.
O estilo é transparente, acessível e límpido, para além do qual se vislumbra uma personalidade cheia de capacidade de observação e não menor capacidade criativa.
Toda a descrição do fogo é autêntica, real, convincente, surgindo de quando em onde pinceladas de fantasia produto do poder criativo.
Em alguns momentos, podemos ainda descortinar alguns apontamentos críticos, só «visíveis» para os mais atentos.
Maria Teresa Dinis
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27/04/2009
21/04/2009
07/04/2009
Autoficção
Texto de Manuel Nunes, no seu blogue «Disperso Escrevedor», sobre o romance «Uma Noite com o Fogo».
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O romance «Uma Noite com o Fogo», de António Manuel Venda, é o relato de uma experiência vivida, ideia sustentada pela epígrafe de Mario Quintana: «O autor nada mais fez do que vestir a verdade…».
Porém, a experiência vivida não é descrita como numa simples crónica. A verdade dramática vestida pelo autor não prescinde da ficção, esse canto de sereia em que acreditamos como se fosse a realidade pura.
É essa mistura de referencialidade e imaginação que nos leva a classificar o texto de António Manuel Venda como uma autoficção, designação de género definida basicamente como um relato de conteúdo simultaneamente autobiográfico e romanesco em que se regista identificação nominal entre autor, narrador e protagonista.
Apesar de em «Uma Noite com o Fogo» essa identificação não ser explícita, a sobreposição daquelas três instâncias não deixa de estar presente ao longo de todo o texto. Percebe-se bem de onde e para onde viaja o protagonista naquela noite em que o fogo andou à solta. Percebe-se bem onde ficam aqueles montes de sobreiros e medronheiros assolados pela fúria das chamas. Na personagem que se defronta com o fogo não conseguimos ver outra figura que não seja a do próprio autor, lá na serra algarvia onde nasceu e onde viveu os tempos da infância e da juventude, a tal floresta do sul que deu nome ao seu blogue – uma floresta destroçada pela incúria de todos, não só dos que se sentam nas cadeiras do poder.
O tempo da história resume-se a uma única noite, o suficiente para emocionar o leitor, tanto pelo combate desproporcionado contra a calamidade natural (?), como pela intervenção frequente da memória autoral numa espécie de «recherche du temps perdu» – um mergulho no mundo da infância e da inocência perdida.
Um livro muito interessante de António Manuel Venda, dentro do género a que nos habituou, tão raro, por enquanto, nas nossas letras.
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O romance «Uma Noite com o Fogo», de António Manuel Venda, é o relato de uma experiência vivida, ideia sustentada pela epígrafe de Mario Quintana: «O autor nada mais fez do que vestir a verdade…».
Porém, a experiência vivida não é descrita como numa simples crónica. A verdade dramática vestida pelo autor não prescinde da ficção, esse canto de sereia em que acreditamos como se fosse a realidade pura.
É essa mistura de referencialidade e imaginação que nos leva a classificar o texto de António Manuel Venda como uma autoficção, designação de género definida basicamente como um relato de conteúdo simultaneamente autobiográfico e romanesco em que se regista identificação nominal entre autor, narrador e protagonista.
Apesar de em «Uma Noite com o Fogo» essa identificação não ser explícita, a sobreposição daquelas três instâncias não deixa de estar presente ao longo de todo o texto. Percebe-se bem de onde e para onde viaja o protagonista naquela noite em que o fogo andou à solta. Percebe-se bem onde ficam aqueles montes de sobreiros e medronheiros assolados pela fúria das chamas. Na personagem que se defronta com o fogo não conseguimos ver outra figura que não seja a do próprio autor, lá na serra algarvia onde nasceu e onde viveu os tempos da infância e da juventude, a tal floresta do sul que deu nome ao seu blogue – uma floresta destroçada pela incúria de todos, não só dos que se sentam nas cadeiras do poder.
O tempo da história resume-se a uma única noite, o suficiente para emocionar o leitor, tanto pelo combate desproporcionado contra a calamidade natural (?), como pela intervenção frequente da memória autoral numa espécie de «recherche du temps perdu» – um mergulho no mundo da infância e da inocência perdida.
Um livro muito interessante de António Manuel Venda, dentro do género a que nos habituou, tão raro, por enquanto, nas nossas letras.
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Em Loulé
Estive na noite da passada quinta-feira na Biblioteca Municipal de Loulé para uma apresentação do romance «Uma Noite com o Fogo». Foi no âmbito do clube de leitura daquela biblioteca, com os membros presentes e a apresentação a ser feita por Adriana Freire Nogueira, professora da Universidade do Algarve e moderadora do clube (coordenado por Rita Moreira, da própria biblioteca). Uma apresentação longa, minuciosa, perspicaz, bem-disposta e extremamente inteligente; foi o que me pareceu. E também – se calhar até mais importante –, uma apresentação que em determinadas alturas me surpreendeu, e que deveras me tocou; como a participação de alguns dos membros do clube. Eu sabia que ia correr bem, pois de todos os sítios onde já estive por causa dos livros Loulé é daqueles onde fui mais bem recebido. Era a terceira vez que ia ao concelho (tinha estado uma vez na biblioteca a falar do romance «O Medo Longe de Ti» e outra num debate em Quarteira, sobre literatura), e por isso sentia-me tranquilo. Mas esta apresentação deixou-me verdadeiramente atrapalhado, obrigou-me até a disfarçar alguma comoção que de vez em quando se apoderava de mim. Vendo as coisas agora, fica-me na memória como algo muito bonito que me aconteceu..
06/04/2009
Uma pintura do fogo
Ofereceram-me esta pintura, feita sobre um mosaico, no final da apresentação que fiz há dias na Escola Secundária de Pinheiro e Rosa, em Faro, sobre os livros da minha vida (ver aqui). Disseram-me que a escolheram por causa do romance «Uma Noite com o Fogo»..
03/04/2009
Pequeno relato
Um pequeno relato da apresentação do romance em Lisboa, aqui (o terceiro comentário).
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Mais um comentário
Recebido por e-mail, da minha amiga Márcia Trigo, que leu o romance esta semana.
Acabo de ler o seu «Uma Noite com Fogo». É um livro que nos agarra do início ao fim, tal como o fogo que tão bem relata. Eu também vivi esta experiência numa aldeia transmontana, onde aconteciam fogos que o povo todo apagava (incluindo meninos e meninas bem pequenos), ao som dos sinos da igreja a «tocarem longa e doridamente»... Sem bombeiros, aviões ou outras ajudas. Revejo-me na sua escrita, nas suas emoções, na sua solidariedade com as pessoas, na sua raiva contida. Num mundo a arder, este livro tem de ser lido por todos e devia ser obrigatório na escola para todos. Gostei muito, muito.
Acabo de ler o seu «Uma Noite com Fogo». É um livro que nos agarra do início ao fim, tal como o fogo que tão bem relata. Eu também vivi esta experiência numa aldeia transmontana, onde aconteciam fogos que o povo todo apagava (incluindo meninos e meninas bem pequenos), ao som dos sinos da igreja a «tocarem longa e doridamente»... Sem bombeiros, aviões ou outras ajudas. Revejo-me na sua escrita, nas suas emoções, na sua solidariedade com as pessoas, na sua raiva contida. Num mundo a arder, este livro tem de ser lido por todos e devia ser obrigatório na escola para todos. Gostei muito, muito.
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02/04/2009
Apresentação em Lisboa
Foi ontem ao fim da tarde, na Livraria Bertrand da Avenida de Roma, em Lisboa. A primeira apresentação do romance «Uma Noite com o Fogo». Nas duas fotos de cima, além de Carlos Pinto Coelho (que fez a apresentação) e de mim, pode ver-se à esquerda (de pé) Cristina Piedade, responsável pela livraria e pelos eventos nas livrarias Bertrand em Lisboa, e à direita (sentada) Lúcia Pinho e Melo, editora da Quetzal. .
31/03/2009
Três apresentações
Três apresentações do romance «Uma Noite com o Fogo»:
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- Quarta-feira, 01 de Abril, 18h30, na Livraria Bertrand da Avenida de Roma, em Lisboa (apresentação de Carlos Pinto Coelho);
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- Quinta-feira, 02 de Abril, 21h30, na Biblioteca Municipal de Loulé (apresentação de Adriana Freire Nogueira);
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- Sexta-feira, 24 Abril, 21h30, na Livraria Pátio das Letras, em Faro (apresentação de José Vilhena Mesquita).
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- Quarta-feira, 01 de Abril, 18h30, na Livraria Bertrand da Avenida de Roma, em Lisboa (apresentação de Carlos Pinto Coelho);
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- Quinta-feira, 02 de Abril, 21h30, na Biblioteca Municipal de Loulé (apresentação de Adriana Freire Nogueira);
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- Sexta-feira, 24 Abril, 21h30, na Livraria Pátio das Letras, em Faro (apresentação de José Vilhena Mesquita).
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27/03/2009
Uma recomendação
Pequeno texto, de Sílvia Souto Cunha, saído na revista «Visão» (26.03.09, «livros recomendados»), sobre o romance «Uma Noite com o Fogo».
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Diz o autor que este livro vivia dentro dele há anos. Como a casa da infância, apetece dizer. Um livro que foi acordado por uma notícia na televisão: o lugar da sua infância estava cercado pelas chamas. Daqui se parte para um conflito ficcional com as labaredas que têm devastado Portugal (e não só) como um súbito inimigo. Por entre estevas, eucaliptal, montanhas a arderem, descreve-se o confronto desigual de pequenos Davids, armados de enxadas e baldes, contra Golias. De perto, sem o filtro protector do rodapé noticioso.
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Diz o autor que este livro vivia dentro dele há anos. Como a casa da infância, apetece dizer. Um livro que foi acordado por uma notícia na televisão: o lugar da sua infância estava cercado pelas chamas. Daqui se parte para um conflito ficcional com as labaredas que têm devastado Portugal (e não só) como um súbito inimigo. Por entre estevas, eucaliptal, montanhas a arderem, descreve-se o confronto desigual de pequenos Davids, armados de enxadas e baldes, contra Golias. De perto, sem o filtro protector do rodapé noticioso.
22/03/2009
21/03/2009
Pequeno texto
Pequeno texto de Fernando Sobral sobre o romance «Uma Noite com o Fogo». Foi publicado ontem no «Jornal de Negócios».
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O fogo tudo destrói e tudo pode ajudar a reconstruir. Mas o fogo é, também, a dor instalada na alma dos homens. Tudo isso parece transparecer neste livro de António Manuel Venda, um dos mais talentosos romancistas nacionais dos últimos anos. A escrita de Venda é uma homenagem a um mundo que vai desaparecendo em Portugal (o interior), mas não é um imenso adeus. É uma despedida, sempre a penúltima, porque a ele regressa sempre, como o narrador deste livro. O fogo encurrala-o nas suas memórias de um tempo antes dele. O olhar do narrador é digital: os pormenores dos sentimentos profundos dos homens estão todos lá. O fogo queima e ilumina a escrita de Venda.
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O fogo tudo destrói e tudo pode ajudar a reconstruir. Mas o fogo é, também, a dor instalada na alma dos homens. Tudo isso parece transparecer neste livro de António Manuel Venda, um dos mais talentosos romancistas nacionais dos últimos anos. A escrita de Venda é uma homenagem a um mundo que vai desaparecendo em Portugal (o interior), mas não é um imenso adeus. É uma despedida, sempre a penúltima, porque a ele regressa sempre, como o narrador deste livro. O fogo encurrala-o nas suas memórias de um tempo antes dele. O olhar do narrador é digital: os pormenores dos sentimentos profundos dos homens estão todos lá. O fogo queima e ilumina a escrita de Venda.
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19/03/2009
Um texto
Um texto sobre o romance «Uma Noite com o Fogo» foi publicado aqui, no «Diário Digital». É da autoria do jornalista Pedro Justino Alves.
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Por dentro dos incêndios
Por dentro dos incêndios
«Uma Noite com o Fogo», obra de António Manuel Venda editada pela Quetzal, aborda um tema pouco comum na nossa literatura, embora seja um tema frequente nas nossas vidas pelo menos durante os meses quentes do ano: os incêndios. Só por isso já merece um destaque…
Falar de um assunto que afecta milhares de pessoas, directa e indirectamente, não é tarefa fácil. Ainda mais quando o assunto deixa marcas profundas em quem viveu essas experiências. Infelizmente, os incêndios são tema recorrente nos noticiários nacionais, principalmente no pico do Verão, quando, atónitos, ouvimos de tudo um pouco, críticas, palavras de esperança, desespero e, muitas vezes, apenas silêncio, silêncio daqueles que não compreendem porque estão a viver um autêntico inferno.
«Uma Noite com o Fogo» consegue transmitir um pouco desse drama, já que a sua totalidade só saberá aquele que o viveu. E, por muito que se domine a arte de juntar palavras, nunca ninguém será capaz de transmitir verdadeiramente aquilo que sentiu.
O livro decorre numa única noite. Depois de ver pela televisão o local onde passou a sua infância atacado pelo fogo, o narrador parte de imediato ao encontro das suas raízes. Não sabe por quê, responde apenas a um impulso, mas parte. O primeiro impacto com o fogo, talvez o principal personagem do livro, surge no mesmo local onde dias antes tinha ficado parado devido à passagem de um rebanho de ovelhas, num dia calmo, «(uma viagem) interrompida tantas vezes só porque me apetecia ficar a observar alguma coisa, ou tirar uma fotografia…» (página 11)
«Uma Noite com o Fogo» vive essencialmente das memórias do narrador, da dor de ver parte da sua infância tomada pelo fogo e da sua luta por manter vivo o que as chamas anseiam por destruir.
Quando chega ao seu destino, dá-se a desilusão de se encontrar sozinho, sem «carros de bombeiros, ou de particulares que andassem também no combate às chamas; até algumas viaturas distintas de políticos nem por sonhos dignos de distinção, ou algum helicóptero mais destemido para se aventurar à noite pelos ares pintados de vermelho. E jornalistas, também jornalistas, sobretudo se houvesse políticos. Mas não. Nada. Ninguém.» (páginas 15/ 16)
A dor, a raiva e o desespero invariavelmente aumentam, ainda mais porque o narrador procura o seu irmão, que também está a combater o fogo no mesmo local, mas não no mesmo espaço que ele. Se antes o silêncio nocturno dominava o monte, agora é o barulho do mato a arder que comanda os seus pensamentos, que vagueiam pelas memórias das dores da avó, pela ponte que unia os montes, a fobia de apanhar uma chave, o cheiro da azenha, os estudos…
«Uma Noite com o Fogo» questiona também as decisões dos bombeiros e as «baboseiras» dos políticos, sempre ávidos de aparecerem. Nas páginas 56/ 57 o autor coloca uma pergunta que alimenta muitas mentes que já viveram o drama dos incêndios:
«Como era possível deixar o fogo à solta, esperá-lo apenas no recato das estradas nacionais, no alcatrão por onde fugir seria apenas uma questão de segundos? Esperá-lo aí, num descanso, até que ele chegasse, depois de tudo ter queimado, deixando atrás de si o chão coberto de cinza e troncos das árvores que fossem capazes de aguentar-se de pé, todos secos, com as pernadas que conseguissem manter, secas elas também, até com as folhas que se aguentassem, inevitavelmente secas? Quase a superfície de outro planeta, isso deixaria o fogo atrás de si…»
Após encontrar o irmão, ambos partem para essa luta solitária contra o fogo, semelhante à de milhares de outros que nos incêndios que têm devastado o país procuram combater o monstro de inúmeros tentáculos, que absorve tudo à sua frente.
O livro é antes de tudo um grito de raiva contra a incapacidade política para resolver uma questão que todos já sabem que se irá repetir, um grito de revolta perante aquilo que os incêndios roubam às vidas das pessoas.
Principalmente o seu passado…
«Uma Noite com o Fogo» consegue transmitir um pouco desse drama, já que a sua totalidade só saberá aquele que o viveu. E, por muito que se domine a arte de juntar palavras, nunca ninguém será capaz de transmitir verdadeiramente aquilo que sentiu.
O livro decorre numa única noite. Depois de ver pela televisão o local onde passou a sua infância atacado pelo fogo, o narrador parte de imediato ao encontro das suas raízes. Não sabe por quê, responde apenas a um impulso, mas parte. O primeiro impacto com o fogo, talvez o principal personagem do livro, surge no mesmo local onde dias antes tinha ficado parado devido à passagem de um rebanho de ovelhas, num dia calmo, «(uma viagem) interrompida tantas vezes só porque me apetecia ficar a observar alguma coisa, ou tirar uma fotografia…» (página 11)
«Uma Noite com o Fogo» vive essencialmente das memórias do narrador, da dor de ver parte da sua infância tomada pelo fogo e da sua luta por manter vivo o que as chamas anseiam por destruir.
Quando chega ao seu destino, dá-se a desilusão de se encontrar sozinho, sem «carros de bombeiros, ou de particulares que andassem também no combate às chamas; até algumas viaturas distintas de políticos nem por sonhos dignos de distinção, ou algum helicóptero mais destemido para se aventurar à noite pelos ares pintados de vermelho. E jornalistas, também jornalistas, sobretudo se houvesse políticos. Mas não. Nada. Ninguém.» (páginas 15/ 16)
A dor, a raiva e o desespero invariavelmente aumentam, ainda mais porque o narrador procura o seu irmão, que também está a combater o fogo no mesmo local, mas não no mesmo espaço que ele. Se antes o silêncio nocturno dominava o monte, agora é o barulho do mato a arder que comanda os seus pensamentos, que vagueiam pelas memórias das dores da avó, pela ponte que unia os montes, a fobia de apanhar uma chave, o cheiro da azenha, os estudos…
«Uma Noite com o Fogo» questiona também as decisões dos bombeiros e as «baboseiras» dos políticos, sempre ávidos de aparecerem. Nas páginas 56/ 57 o autor coloca uma pergunta que alimenta muitas mentes que já viveram o drama dos incêndios:
«Como era possível deixar o fogo à solta, esperá-lo apenas no recato das estradas nacionais, no alcatrão por onde fugir seria apenas uma questão de segundos? Esperá-lo aí, num descanso, até que ele chegasse, depois de tudo ter queimado, deixando atrás de si o chão coberto de cinza e troncos das árvores que fossem capazes de aguentar-se de pé, todos secos, com as pernadas que conseguissem manter, secas elas também, até com as folhas que se aguentassem, inevitavelmente secas? Quase a superfície de outro planeta, isso deixaria o fogo atrás de si…»
Após encontrar o irmão, ambos partem para essa luta solitária contra o fogo, semelhante à de milhares de outros que nos incêndios que têm devastado o país procuram combater o monstro de inúmeros tentáculos, que absorve tudo à sua frente.
O livro é antes de tudo um grito de raiva contra a incapacidade política para resolver uma questão que todos já sabem que se irá repetir, um grito de revolta perante aquilo que os incêndios roubam às vidas das pessoas.
Principalmente o seu passado…
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